20 janeiro 2005

sentir o povo que vive

O fot�grafo e a escritora percorrem a cal�ada, vivem o Povo. Ele, escreve ideias e sentimentos com cada clique da sua m�quina fotogr�fica. Ela, obt�m as mais belas imagens com um simples pestanejar dos c�lios e a leveza da pena na escrita.

M�goa no semblante

As noites eram passadas com o ar condicionado, com a refrigera�ao a funcionarem a um ritmo intenso pois as temperaturas continuavam a nao querer descer dos 25 graus. O apelo era permanente para praiar, mas compromissos sao compromissos e quando a isso se junta o grande prazer de encontro, entao nao h� apelos de lazer que desviem o Fot�grafo da cal�ada recifense.
A Escritora, empenhada desde h� algum tempo num projecto de sensibiliza�ao da blogoesfera para os problemas ecol�gicos que poem em risco o equil�brio da Natureza, sempre encontrou algum tempo para acompanhar o Fot�grafo em mais uma caminhada cal�ada acima. Ele sempre lhe fica grato pela companhia.
Quando pela manha, bem sedo, o Fot�grafo abriu de par em par as janelas do seu quarto, todo o ambiente foi invadido pelo cheiro dos jasmineiros dos quintais pr�ximos, dando-lhe de imediato vontade forte de sair para a rua. Pouco tempo depois, l� seguiu ele ao encontro da Escritora.
Caminhar e conversar. Olhar com olhos de ver as gentes que os rodeiam na sua caminhada matinal para os afazeres di�rios. A garotada j� brinca na cal�ada, muitos deles sabedores de �artes� e de �saneamentos�, orgulho da Escritora que muito contribuiu para a sua forma�ao integral. Muitos deles ainda a vem cumprimentar com um sorriso aberto. Sentem que passaram a ser mais importantes para a Sociedade.
As conversas saltitam do que vao observando nas gentes com quem se cruzam para os projectos que a Escritora desenvolve para sensibiliza�?o ecol�gica. Trabalho cuidado efectuado em colabora�ao com uma amigo portugues, Fernando de seu nome, pretende chegar ao cora�ao das gentes para lutarem pela defesa do meio ambiente como forma de minorar as cat�strofes naturais.
O sol a pique j� queima. Procuram a sombra das �rvores para tornar a caminhada mais suave. As horas sao segundos nestas caminhadas pelo sentir do Povo recifense. � hora das despedidas, a Escritora observa:
_Caro Fot�grafo, sinto m�goa no seu semblante...


2004 - Helena Maria Milheiro

M�goa no semblante

E o cora�ao dela sentiu-se apertado... o que teria contribu�do para aquela m�goa vis�vel em seu rosto?
Mais uma vez olhou ao fotografo, disse:
_ Sinto, as vezes, que quando algo me deixa triste, mesmo que eu esque�a por momentos, meus olhos aos outros brilham menos. E sei que isso � verdade. Assim como sei que nao vale a pena deixar de brilhar nos olhos de outros.


Certa vez tive uma m�goa profunda... e ainda sinto, por vezes, uma certa dor. Sei que nesta altura, nos momentos mais dif�ceis, tentei com dificuldade esconder a dor para que nem eu, nem ningu�m sent�ssemos mais nada e para que meus olhos, inocentes, brilhassem com toda a sua for�a. Muitas vezes nao consegui... e numa dessas vezes, voltei minha aten�ao sobre mim e minha vida. Sobre as dificuldades que atravessava assim como e principalmente pelas alegrias de batalhas ganhas, pelos sorrisos soltos, dados e recebidos, pela beleza que a vida insiste em me mostrar fazendo-me nova a cada instante e... fiz comigo um pacto. Chorar profundamente minhas dores. Para que as minhas l�grimas fossem al�vio na alma e regando-me, fizesse em mim nascer um novo sorriso e uma nova esperan�a.

O tempo corria e ela continuava a falar, sua voz ficava mais baixa e suas palavras mais sentidas, olhava fixamente o mar e o fot�grafo se perdeu no som significativo, no sentido daquelas palavras. Pareceu em alguns momentos uma melodia. Uma melodia de amor a vida.
Parou de repente e sorriu um sorriso desajeitado e sentiu-se envergonhada. Abra�ou com uma ternura imensa seu grande amigo. Ela sabia o quanto de esperan�a sempre viu nos olhos do fot�grafo e sabia que aquelas palavras nao era estranhas para ele. Admirava-o por isso. Viu, orgulhosa, ele vencer momentos dif�ceis. Superar algumas m�goas.

E olhando nos olhos outra vez, disse-lhe:
_ Esta m�goa em teu rosto...
Sentia dificuldade, agora, em lhe falar palavras. Tentou outra vez.
_ Esta m�goa em teu rosto... contribui de alguma maneira para que ela existisse?
Outra vez abra�aram-se. E as palavras pareciam j� nao ter tanta import�ncia naquele momento.

Algumas crian�as que brincavam por perto, reconhecendo os amigos que juntos caminhavam cal�ada acima, correram ao encontro deles.

lualil

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