10 fevereiro 2005

"H� em olhos humanos,
ainda que impressos numa tela, uma coisa terr�vel:
O grito clandestino de haver alma!...


O que prende meu olhar � uma tela
Nao sei quem a pintou. � um retracto
Vendido numa rua ao desbarato
Com moldura negra e bem singela

Nesse quadro simples mas tao belo
Onde mora um corpo de mulher
Sobressai um lindo malmequer
Numa longa madeixa de cabelo

Atr�s dela, o c�u em tom cinzento
No seu rosto a boca bem pequena
E uns olhos que me fitam com tal pena
Que tamb�m estristeci nesse momento

Segurando ansiosa um ramo de flores
Como primavera apertada contra o peito
Algumas delas com o caule j� desfeito
Sofrendo com ela as mesmas dores

A blusa aberta de peito decotado
Um la�o que lhe cai meio escondido
Entre as flores e o peito dividido
Repousa no seu seio envergonhado

Ela segura a primavera que lhe deram
Mas seu olhar aspira outro horizonte
E nem que o sol detr�s de si desponte
A libertar� da tela onde a prenderam

Esta mulher tao expressiva que nos fala
Pela desconhecida ma deste pintor
Tao triste, sem esperan�a, sem amor,
Requer que meditemos ao olh�-la

E nesta tela onde existe tanta dor
Nao posso entender quem nao entende
Que a liberdade nao se compra, nao se vende
Nunca se recusa seja a quem for!...


Albino Santos

Nenhum comentário: