Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente.
Traduzir uma parte na outra parte - que é uma questão de vida ou morte -
será arte?
Ferreira Gullar
29 setembro 2005
28 setembro 2005
Manuel Bandeira,
Manuel Alegre
Vejo tremular alegre uma bandeira
cantemos um hino!
Letra para um hino
É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.
É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não.
É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.
Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.
Manuel Alegre
26 setembro 2005
Fim de tarde.
No céu plúmbeo
A Lua baça
Paira
Muito cosmograficamente
Satélite.
Desmetaforizada,
Desmitificada,
Despojada do velho segredo de melancolia,
Não é agora o golfão de cismas,
O astro dos loucos e dos enamorados.
Mas tão-somente
Satélite.
Ah Lua deste fim de tarde,
Demissionária de atribuições românticas,
Sem show para as disponibilidades sentimentais!
Fatigado de mais-valia,
Gosto de ti assim:
Coisa em si,
- Satélite.
Manuel Bandeira
25 setembro 2005
1912 - 2005
Apolonio de Carvalho, o general do PT, foi uma figura ímpar no cenário da vida política brasileira. Poucos como ele viveram com tanta intensidade a «paixão libertária» que o impeliu, desde os seus anos de cadete da Escola Militar do Realengo, a engajar-se na luta pelos ideais socialistas e contra os regimes de opressão, com uma coerência que se manifestou em todos os episódios vividos: da militância no PCB e na ANL (Aliança Nacional Libertadora) à participação na Guerra Civil Espanhola e na Resistência Francesa contra o nazismo; da luta clandestina contra a ditadura militar no Brasil, como membro do PCBR, à militância no PT, desde o momento da fundação do partido até os dias de hoje.
24 setembro 2005
Não nos víamos com freqüência, mas quando isso acontecia ficávamos horas conversando. Na verdade eu o ouvia. Eram longas e mágicas histórias. Lembro que já choramos e rimos os dois. Nunca soube ao certo se aquelas eram histórias reais, suas histórias, nem nunca quis perguntar. A dúvida fazia permanecer entre nós a magia e o brilho do seu olhar seria sempre o mais intenso.
Ontem ele me pareceu diferente. Era final da tarde e havia um vento mais forte que o comum. Ele me pareceu distante. Quis falar-lhe, mas ele tocou meus lábios suavemente e mostrou-me as folhas que corriam pelo chão e voavam.
_ Sim. Foi o vento que a trouxe para mim... o vento!
Ele me repetia isso com uma voz suave e misteriosa. Era uma das minhas histórias preferidas. Dele também. Repetia-me seguidas vezes que o vento trouxera para ele o único amor que um dia conhecera. Assim, misteriosamente pelo vento. Viveram juntos o tempo mais feliz de suas vidas. Sempre via em seus olhos apesar da beleza daquela história certa tristeza no olhar. Mas ele me fazia sentir uma emoção tão fantástica que só isso me bastava. Um dia, contou-me que o mesmo vento que a trouxera a tinha levado embora. Também misteriosamente.
Sempre achei que era uma forma poética de falar em chegadas e de partidas. E eu o compreendia.
Enquanto o vento ainda fazia voar as folhas espalhadas no chão. Pegou-me pelo braço e me levou até seu quarto. Lá, abriu a gaveta de um armário antigo e muito bem cuidado, e mostrou-me um lenço, amarelado pelo tempo, que envolvia uma pedra, como um cristal.
_ É dela.
Disse-me.
_Ficou comigo por todo esse tempo.
Deixou que eu tocasse. Senti uma emoção que não consigo explicar. Continuou.
_Um dia essa pedra ficará guardada contigo. Saberás o dia. Mas não esqueça, ela é a prova da minha magia. Continue a contá-la.
Disse que sim com um gesto na cabeça e beijei seu rosto. Voltamos ao jardim e ele naquele dia permaneceu em silencio a olhar e sentir o vento. Despedimo-nos e parti.
Faz muito tempo que não o vejo. Estive fora em uma viagem mais longa que as de costume e como me sentia cansada, fiquei uns dias sem o procurar.
Ele me fazia falta. Era noite, estava frio, e lá fora, vento e chuva. Adormeci lendo um livro e ao amanhecer, fui visitá-lo. Precisava ver-lo.
Levei mais tempo que o normal para chegar, a chuva e o vento dificultava a minha visão e o carro, instável me fazia sentir medo. Uma dor apertava meu peito. Devia ser da chuva, da insegurança. Segui.
Parei meu carro logo na entrada e o vento parecia me impedir de sair e entrar na casa. Corri e logo estava na varanda. Gritei seu nome. Outra vez. E outra e outra. Procurei em todos os cômodos da casa e não o encontrei. Corri até seu quarto, me sentia aflita, também não o encontrei lá. Na cama, a pedra. Brilhava intensamente. Peguei-a nas mãos e sai até o jardim.
No chão estava sua capa, mais adiante o lenço amarelado pelo tempo.
Deixei que a chuva me molhasse por um longo tempo. Deixei que o vento me confirmasse que ele havia partido. Que ela enfim tinha voltado e que juntos tinham seguido.
Chorei. E não sei se me sentia alegre, triste ou se tinha saudades.
Quando terminei, emocionada de contar a história, essa em especial me deixava totalmente envolvida, uma senhora, cabelos brancos e sorriso nos lábios que estava sentada atrás e que até aquele momento eu não a tinha visto, se levantou e disse:
_ É uma bela história de amor. Obrigada por tê-la contado! Continue... sempre!
_ Não agradeça. Essa é minha mágica missão.
Disse-lhe.
Brilhavam seus olhos, os meus e os de toda a gente.
23 setembro 2005
Muita gente não entendeu a expressão “empobrecimento ilícito” usada por Severino Cavalcanti. Pode ter sido ironia dele, mas também pode ter sido a confissão do ilícito. E, ao mesmo tempo, pode estar lamentando que, mesmo com o ilícito, empobreceu.
É comum o enriquecimento ilícito; felizmente também é comum o enriquecimento lícito. Empobrecimento ilícito talvez tenha como caso único o de “Severino, o Breve”.
Já houve empobrecimento lícito com um Severino e o levou a santidade. São Severino era um rico romano que viveu pelos anos 450 e empobreceu doando sua fortuna aos pobres.
Depois, convenceu uma rica proprietária de alimentos a doar comida aos pobres, como em um grande restaurante, e ainda ficou conhecido por afastar uma praga de gafanhotos, pela oração. Posteriormente, São Severino se isolou em uma região árida do Norte da África.
“Severino, o Breve” já voltou ontem a Pernambuco, onde São Severino é venerado com romarias a um santuário em Pau D'Alho(PE). Já “Severino, o Breve”, pelo foguetório de ontem em Pernambuco, é considerado pelos oposicionistas um santo do pau oco.
Alexandre Garcia - Jornalista
22 setembro 2005
LOS AMOROSOS
Los amorosos callan.
El amor es el silencio más fino,
el más tembloroso, el más insoportable.
Los amorosos buscan,
los amorosos son los que abandonan,
son los que cambian, los que olvidan.
Su corazón les dice que nunca han de encontrar,
no encuentran, buscan.
Los amorosos andan como locos
porque están solos, solos, solos,
entregándose, dándose a cada rato,
llorando porque no salvan al amor.
Les preocupa el amor. Los amorosos
viven al día, no pueden hacer más, no saben.
Siempre se estan yendo,
siempre, hacia alguna parte.
Esperan,
no esperan nada, pero esperan.
Saben que nunca han de encontrar.
El amor es la prórroga perpetua,
siempre el paso siguiente, el otro, el otro.
Los amorosos son los insaciables,
los que siempre -¡que bueno!- han de estar solos.
Los amorosos son la hidra del cuento.
Tienen serpientes en lugar de brazos.
Las venas del cuello se les hinchan
también como serpientes para asfixiarlos.
Los amorosos no pueden dormir
porque si se duermen se los comen los gusanos.
En la oscuridad abren los ojos
y les cae en ellos el espanto.
Encuentran alacranes bajo la sábana
y su cama flota como sobre un lago.
Los amorosos son locos, sólo locos,
sin Dios y sin diablo.
Los amorosos salen de sus cuevas
temblorosos, hambrientos,
a cazar fantasmas.
Se ríen de las gentes que lo saben todo,
de las que aman a perpetuidad, verídicamente,
de las que creen en el amor
como una lámpara de inagotable aceite.
Los amorosos juegan a coger el agua,
a tatuar el humo, a no irse.
Juegan el largo, el triste juego del amor.
Nadie ha de resignarse.
Dicen que nadie ha de resignarse.
Los amorosos se avergüenzan de toda conformación.
Vacíos, pero vacíos de una a otra costilla,
la muerte les fermenta detrás de los ojos,
y ellos caminan, lloran hasta la madrugada
en que trenes y gallos se despiden dolorosamente.
Les llega a veces un olor a tierra recién nacida,
a mujeres que duermen con la mano en el sexo,
complacidas,
a arroyos de agua tierna y a cocinas.
Los amorosos se ponen a cantar entre labios
una canción no aprendida,
y se van llorando, llorando,
la hermosa vida.
Jaime Sabines
21 setembro 2005

"Hoje o rio capibaribe segue seu rumo muito sujo. Esperamos que no futuro suas águas sejam cristalinas para que possamos tomar banho e pescar."
*Trabalhos realizados por alunos da Escola Exponente com a orientação da professora Thereza Christina Melo - Recife/PE
CAPIBARIBE
(caapiuar-y-be / capibara-ybe)
Chamo-te Capibaribe
És Tupi entre capivaras
E porcos selvagens
Desde o agreste à zona da mata
Tua beleza espalhas
Ao longo de dez cidades
Hoje, olho para ti
Parece que te matam um pouco a cada dia
Mas resistes... és teimoso
Alimentas tantas barrigas e tantas almas
E segues tu, junto a uma gente caranguejo
Arrastando-se, sobrevivendo
Mas outrora foste mais
Hidrovia para pessoas e ouro branco
Tuas águas, terapia
Hoje, olho para ti
Parece que te matam um pouco a cada dia
Mas resistes... és teimoso
Porém não escuto os teus murmúrios
A quem segredas a tua dor?
É às pontes que falas baixinho teus lamentos?
Só vejo a tua beleza,
Hipnotizo-me no reflexo brilhante
Que mostras os casarios da aurora,
Na tua força que brota nos verdes dos manguezais
E nos beijos e carícias que trocas com as garças.
Aqui estou, ao teu lado
Traduzindo o que sentes e o que nos fazes sentir.
20 setembro 2005
As condições do tempo
Como perceber
onde a frágil sedução por uma flauta
na planície
soa como uma flor à beira dum vulcão?
Como entender o sonho que trouxe a madrugada
antes do dia claro
duma imensa espera?
Não há voz antiga que extinga
a essência do fruto imaginado,
um olhar tranquilo aberto para o amor.
Não há condições de tempo
para uma espera
sob a chuva,
como pétalas caindo soando como uma flauta.
in "Poemas Soltos & Dispersos"
Obras do autor
Poesia
* "37 Poemas" / 1961 – esgotado
* "Os Sinais da Terra" / 1962 – esg.
* "Poema para Hoje" / 1977 – esg.
* "Objecto Experimental" / 1978 – esg.
* "A Palavra em Duas" / 1983 – esg.
* "O Frio dos Dias" / 1986 – esg.
* "Como um Relógio de Areia" / 1993. Edições M.i.c.
* "Transparências" / 2000. Edição AJEA
* "Lagos Ontem" / 2000. Edição da Câmara Municipal de Lagos – esg.
* "Poemas Primeiros" (Reedição dos livros de 61 e 62) / 2001 – Edição AJEA.
* "Por de trás das Palavras" / 2002. Ed. Mic.
* " Poemetos" / 2004 – fora do mercado.
* "Terrachã" /2004. Edição da AJEA
* “Poemas Soltos & Dispersos” – fora do mercado
4 Postais / Poemas / 1978
"Camaleão", "♂ ♀", "Paisagem" e "Poema Nu Quotidiano" – esgotado.
Prosa
"Merdock" / 2003. 2ª edição 2004. Edição AJEA
Antologias, colectivos e outros
* "Antologia Anti-Floral" / 1980. Ed. Barlavento.
* Costa d' Oiro – Cadernos de Poesia – vários
* "Poemas de e sobre o Natal " – Edições Mic / 1998
* "100 anos de Garcia Lorca" – Antologia. Universitária Editora / 98
* "Poemas Satíricos e Outros" (Bodas de Prata). Ed Mic / 2002
* "Poetânea"/ 2003. Edição Hugin
Poesia Experimental
Exposições: Armazém Regimental, 1992; Coop. 30 Junho, 1994; Artebúrguer, 2005.
18 setembro 2005
17 setembro 2005
Eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar, que eu amava quando imaginava que amava.
Era a tua pele.
Muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.
Jose Luis Peixoto
15 setembro 2005
14 setembro 2005
12 setembro 2005
Geraldo Vandré
Olha que a vida tão linda se perde em tristezas assim
Desce o teu rancho cantando essa tua esperança sem fim
Deixa que a tua certeza se faça do povo a canção
Pra que teu povo cantando teu canto
Ele não seja em vão
Eu vou levando a minha vida enfim
Cantando e canto sim
E não cantava se não fosse assim
Levando pra quem me ouvir
Certezas e esperanças pra trocar
Por dores e tristezas que bem sei
Um dia ainda vão findar
Um dia que vem vindo
E que eu vivo pra cantar
Na avenida girando, estandarte na mão
Pra anunciar
11 setembro 2005
DOIS SÉCULOS, DOIS PAÍSES, DUAS TRAGÉDIAS

Estou a falar dos Estados Unidos, erradamente e não por acaso, conhecido como América e também do Chile: do Chile da Unidade Popular, de Salvador Allende, das expropriações das grandes multinacionais do cobre, da ITT, do Chile onde um operário que desfilava numa manifestação de apoio ao Governo sintetizava sozinho com o seu cartaz o sentimento da maioria do povo chileno: «Este gobierno es una mierda, pero es mi Gobierno», do Chile do canto, da música, dos amores e desamores, da amizade profunda e da inimizade também, da fraternidade humana mais pura e do ódio mais requintado, das discussões políticas e da cultura nos excelentes livros baratos que publicava o Governo chileno e na alfabetização do povo. Dos erros e dos acertos do Governo, dos trabalhadores, dos partidos de esquerda. Do vinho que aquecia a alma e corpo. Da luta. Da vida intensa que não necessitava de psiquiatras e sim de dias de 48 horas para poder vivê‑Ia.
Mas, nesse Chile que o seu povo queria construir, pairava o ódio concentrado dos seus inimigos. «Não podemos aceitar que por irresponsabilidade do povo chileno, (dos “rotos”, como são chamados depreciativamente pelos grandes senhores os pobres do Chile), tenhamos um Presidente marxista que faça desse país uma nova Cuba», Henry Kissinger, secretário de Estado do Governo de Nixon, dixit.
Os Estados Unidos eram o principal inimigo de Chile: do povo chileno, dos seus trabalhadores, intelectuais, camponeses, indígenas Mapuches, estudantes, das suas crianças pobres encontrando naquele 11 de Setembro do ano 1973, século XX, o mensageiro da morte em Augusto Pinochet e cúmplices, os militares, os ricos chilenos e na imprensa «imparcial e isenta» e o Governo de Estados Unidos o seu principal responsável, em nome das suas empresas, em nome da Democracia, em nome da paz, da justiça, do anticomunismo, em nome da liberdade de mercado e os seus arautos como o economista estado‑unidense Milton Friedman, assassinaram milhares de pessoas, torturaram de acordo com as regras dadas a conhecer na «Escola das Américas» sediada em Panamá (agora dissolvida) «por professores da CIA», torturaram para obter confissões, e agora preparam‑se para legitimar a tortura, e também para semear o terror, torturaram ainda, crianças de três anos para que os pais falassem e tudo o que fizeram os militares chilenos foi aprendido na tal Escola das Américas dirigidas pelos Estados Unidos.
Mataram a poesia da vida.
Para quê? Porquê? Para que os capitalistas, os imperialistas ianquis e os seus aliados nativos não deixassem de ter lucros, mais lucros. E durante 13 ou 14 anos, o Chile viveu no terror, no analfabetismo, na miséria, com crianças com fome, sem leite e sem pão. E o mesmo fizeram, noutros dias que não o 11, ou mesmo no Uruguai meu país, na Argentina, no Brasil, em toda a América. Foi o começo da política capitalista chamada «neoliberal». Para implantá‑la tinham que matar toda a resistência, matar física e espiritualmente. Tentaram e fizeram o melhor possível, mas não conseguiram os seus objectivos mas essa história de crimes vinha de longe.
Mas antes há que referir o que faz ou pode fazer uma empresa dos Estados Unidos.
O Presidente da Union Carbide – Warren, cidadão dos Estados Unidos – Empresa de Pesticidas dos EUA, sediada na Índia, foi acusado – com mandato de captura – de negligência criminal porque no ano de 1984, a 2 de Dezembro, a sua empresa, para não ter gastos «prescindíveis», eliminou os sistemas de segurança e, nesse dia, uma explosão na fábrica matou entre 16 mil e 30 mil pessoas. «Danos colaterais» na Índia, então, que importa? Não foi em Nova Iorque e, portanto, o Sr. Anderssen deve hoje continuar a matar por não querer gastar na segurança dos trabalhadores das suas fábricas.
Mas a própria história dos EUA começou por ser criminosa moral ou materialmente.
Conhece‑se, por acaso, o nome de Thomas Payne, ligado profundamente à história desse país no seu começo, como o grande ideólogo dos pobres, dos pequenos agricultores, dos negros escravos contra os critérios de G. Washington, inglês que lutou como soldado pela independência dos Estados Unidos e tem o livro mais importante dessa época, Common Sense dirigido aos soldados independentistas? É difícil conhecê-lo. Porque foi banido da história do Norte do país. Porquê? Porque lutava pelos brancos pobres, negros, indígenas.
[Este texto, da autoria do jornalista uruguaio André Martín, conheceu a estampa no dia 27 de Dezembro de 2001, no jornal Diário de Notícias, cerca de três meses e meio depois do atentado perpetrado contra as torres gémeas (Twin Towers), da cidade de Nova Iorque.
Porque o ruído provocado pelos gritos histéricos das carpideiras oficiais da Nação nos incomoda sobremaneira, porque partilhamos o pensamento do autor, porque subscrevemos a sua análise, porque também não esquecemos Salvador Allende, morto em 11 de Setembro de 1973, decidimos publicá-lo na íntegra (não obstante alguns erros gramaticais), hoje e amanhã. É este o nosso contributo para a compreensão do atentado e do que o poderá ter motivado.
Quem desejar mais informação, quem quiser reflectir mais profundamente sobre este tema, deverá ler este texto de Joaquín Oramas, publicado no jornal Granma, de Cuba.]
10 setembro 2005
09 setembro 2005
08 setembro 2005
mas...
" A cada volta tua há de apagar o que esta tua ausência me causou"
beijos Rui.
O guardador de rebanhos
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr do sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela
...
Sou um guardador de rebanhos,
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Alberto Caeiro
07 setembro 2005
Recentemente fui “apresentada” por um amigo ao poeta Vieira Calado. Envolvi-me com suas palavras, sua sensibilidade. Gosto como ele escreve, os temas que escolhe e da leveza que consegue dar às palavras mais fortes e profundas.
Senti-me presenteada com os poemas que este poeta, nascido e morador de Lagos, Algarve, Portugal enviou-me.
Vieira, preciso e sinto-me feliz em poder partilhar a tua poesia com todos os que passam por aqui.
Agradeço-te...
Do que eu falo
falo das pedras
falo dos passos
falo das noites
rente ao rio
falo das coisas
falo das falas
falo das asas
de fogo e cio
falo das folhas
falo da morte
falo do canto
de amor e frio.
Vieira Calado
05 setembro 2005
Para que não se levantem quaisquer dúvidas, saibam que lamentamos profundamente a tragédia que atingiu a população do Estado do Louisiana, e mais concretamente a que vive na sua cidade capital, Nova Orleães, situada na margem esquerda do rio Mississípi (EUA). Até porque as tragédias, quando acontecem, atingem com mais violência os mais pobres, os mais carenciados, os mais fracos, os indefesos.
No entanto, e não obstante o drama, há algumas ideias que gostaríamos de partilhar com quem nos lê.
Para começar, no que concerne à intervenção do presidente dos Estados Unidos da América, George Walker Bush, e da sua administração republicana e conservadora, no apoio às vítimas e à reconstrução da cidade. Bush, aquando da passagem do furacão Katrina, estava em gozo de férias, no Texas, e apareceu à grande nação dita democrática dois dias depois da passagem do furacão. Como se sabe, os EUA são uma república estadual, o que implica que a primeira intervenção numa situação de calamidade como a que atingiu Louisiana seja da responsabilidade dos órgãos locais, dos do Estado e do seu Governador. É claro, que se Bush não fosse tapado das ideias e um irresponsável assassino encartado, saberia que numa catástrofe natural desta dimensão, o Governo do Estado não teria meios suficientes para a enfrentar. Os próprios republicanos acusaram o seu chefe de fila dessa falta de visão e de acção: “É impossível aceitar que algo assim aconteça nos Estados Unidos”, disse o ex-líder da Câmara de Representantes, Newt Gingrich. “Ninguém pode estar satisfeito com o género de resposta que vimos em Nova Orleães”, afirmou o governador republicano de Massachusetts, Mitt Romney.
Por outro lado, é inaceitável que Bush e os seus capangas assassinos se preocupem sobremaneira em promover a guerra noutros países que não o seu (como fazem no Iraque e no Afeganistão), em nome dos interesses relacionados com a exploração do petróleo, da venda de armas e do tráfico de droga e, por outro, olvidem as suas populações, a sua segurança e o seu bem-estar. Foi precisamente isso que disseram Hugo Chavez, da Venezuela, e Fidel Castro, de Cuba, país que há mais de 40 anos é vítima de um embargo vergonhoso e hediondo da parte do seu vizinho norte-americano. Para que se compreenda a diferença entre Fidel, a quem as administrações americanas apelidam de ditador e Bush, nosso parceiro dito democrata, basta ver o que acontece em Cuba, quando a ilha é fustigada por um furacão ou uma tempestade tropical.
Mais difícil de entender e de aceitar, é o facto de se saber que no dia em que houvesse uma violenta alteração na natureza –como a provocada por este furacão– um drama com estas dimensões iria acontecer. Desde 2002, as verbas destinadas pela administração republicana ao reforço dos diques e à prevenção de inundações urbanas diminuíram drasticamente, desviadas para uma suposta guerra ao terrorismo, no Iraque e no Afeganistão. Ou seja, ESTE DRAMA JÁ ERA ESPERADO.
Lê-se em separata da insuspeita revista National Geographic, de Setembro de 2004: “Percorrendo a costa do golfo da Louisiana, Windell Curole [administrador da Zona de Diques de South Lafourche] consegue prever o futuro e este afigura-se bem húmido. No sul da Louisiana, a orla está literalmente a afundar-se, ao ritmo de cerca de um metro por século, processo denominado subsidência. A existência de uma orla costeira em afundamento, combinada com um oceano em subida, só pode ter efeitos poderosos. (...)
Para Curole, o aumento do nível do mar, a terra a afundar-se, a erosão costeira e as tempestades temperamentais são factos da vida. (...) ‘Acho que já ordenei provavelmente mais evacuações do que qualquer outra pessoa no país’, afirma Curole”.
Bom, se uma tragédia como esta já era esperada neste território, resta saber quanto tempo mais vamos ter que aguardar até que Bush se suicide, ou se decida a assinar o Protocolo de Quioto (o que poderia ser uma importante primeira medida ambiental), para que muitos mais cidadãos, em todo o Planeta, não venham a morrer às suas mãos e às dos seus capangas assassinos.
Está dito.
04 setembro 2005
Olhei-te seguidas vezes
Minhas mãos tocaram-te a pele
Decorei-te os detalhes
Percebi teus sinais
Teu cheiro, absorvi
Conheci-te os movimentos
E...
Piscaram meus olhos, turvou-me a vista
Já nenhum detalhe diante de mim permanecia,
Busquei-te mas,
Eras outro, diferente
Outros sinais, outros movimentos
Perdi detalhes,
Teus, meus e os nossos
Já agora não os quero (re)conhecer.
03 setembro 2005
Gringo
A etimologia é um ramo onde a imaginação ganha asas e muito facilmente substitui a pesquisa. Vejamos...
1. Como os mexicanos costumam (ou costumavam) chamar os norte-americanos de gringos, nada mais natural, para os ingenuos etimólogos amadores daquele país, que imaginar que a palavra tivesse sido criada especialmente para eles. Para uns, delirantes, as tropas estado-unidenses que entraram na guerra méxico-americana, na primeira metade do séc. XIX, usariam uniformes predominantemente verdes ("green", em Ingles), o que propiciou aos mexicanos enfurecidos a oportunidade de gritar "Green, Go!" (grin go), algo assim como um improvável "Vão (embora), Verdes" - felizmente substituído, no séc. XX, pelo tradicional "yankees, go home".
2.Outros preferiram seguir uma vereda musical, mas nao menos delirante: segundo esta versão, os soldados de Tio Sam, prenunciando assim o famoso Coro do Exército Vermelho, da extinta URSS, costumavam cantar em uníssono, a volta das fogueiras do acampamento, uma canção muito em voga na época, cujo refrão era "Green grow the lilacs"; ora, nada mais natural que os nativos passassem a usar a designação pejorativa de "green grow" (gringro) para aqueles surrealistas soldados cantores. Daí para gringo era um pequeno passo.
No entanto, o Dicionário da Real Academia Espanhola (o vetusto DRAE) ensina que o termo gringo está documentado desde 1787, meio sáculo, portanto, antes das hostilidades entre o México e os EUA. Gringo seria uma corruptela de griego ("grego"), usada para designar qualquer língua exótica e difícil de entender. Com o tempo - que é o pai dos significados -, passou a indicar também o falante dessas línguas incompreensíveis.
O significado de gringo tem variado de lugar para lugar; o excelente Houaiss registra que, no Brasil, o termo se aplica a "indivíduo estrangeiro, especialmente quando louro ou ruivo, diferente do padrão mais encontradiço no país", ou, com conotação mais pejorativa, a qualquer indivíduo estrangeiro, especialmente quando nao fala o Portugues.
Carlos Teschauer, no Novo Dicionário Nacional, define gringo como o estrangeiro em geral, menos o português e o hispano-americano.
por: Cláudio Moreno
01 setembro 2005

No balcão de frios avisto uma fila, detesto filas, aliás, odeio filas mas entrei nela, queria mesmo queijo e presunto, as crianças haviam me pedido uma lasanha no domingo. Chega a minha vez. Peço:
_Trezentos gramas de presunto e trezentos gramas de mussarela por favor!
O balconista havia entendido meu pedido mas me olhava de maneira estranha e me pergunta:
_ A senhora quer trezentas gramas de cada?
Pensei. Vou dizer que não claro, o que eu iria fazer com tanta grama? Nem sequer tenho jardim para por essa grama toda. Também nao sabia que o supermercado vendia grama e principalmente no balcão de frios. Achei aquilo esquisito mas, repeti.
_ Bem... quero trezentos gramas de cada um. Ele me sorriu esquisito e me entregou segundos depois meu pedido. Conferi o pacote. Certo. Trezentos gramas de queijo e trezentos gramas de presunto. Respirei aliviada. Ainda arrumava o pacote no carrinho quando ouvi o próximo cliente fazer o pedido.
_Trezentas gramas de queijo, por favor.
Claro que esperei alguns segundos, apesar da pressa, para ver aquela operação. O balconista ouviu e rapidamente entregou ao cliente o que ele pedira. O mesmo pedido que eu havia feito.
Será que eu sou a única aqui a nao querer "a grama" ?
Certamente tínhamos ali um problema de grama... gramática.



