27 outubro 2006

NOTA PÚBLICA
ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS E DIREITOS HUMANOS

O Movimento Nacional de Direitos Humanos, rede que tem como filiadas cerca de 400 organizações sociais que atuam na promoção dos direitos humanos, vem a público para expressar o que espera do próximo presidente como medidas necessárias para avançar o processo de realização dos direitos humanos.

Já é conhecida nossa posição enfática na defesa dos direitos humanos. Acreditamos que a luta popular, sob as mais diversas formas, é a principal ferramenta para alargar tanto a compreensão quanto a ação em direitos humanos. Temos consciência de que é preciso superar as posturas conservadoras que advogam a restrição dos direitos humanos e, que colocam em risco o Estado Democrático de Direito e, de modo particular, tendem a criminalizar as pessoas em situação de maior vulnerabilidade, as lutas e as organizações que as defendem. Por isso, apostamos na organização do povo e na suas lutas por dignidade, direitos humanos e participação.

Também acreditamos que a melhor maneira de um governante cumprir os compromissos constitucionais com a efetivação dos direitos humanos está na promoção de políticas centradas nos direitos humanos. Neste sentido, somente ações e programas, com orçamento suficiente e com ampla previsão de participação da cidadania na formulação e no monitoramento e avaliação serão capazes de indicar avanços na atuação concreta do Estado em direitos humanos. Estamos certos de que o Estado precisa ser um dos agentes chaves na realização dos direitos humanos, implementando políticas públicas com ampla participação e controle social.

Temos a compreensão de que este é um momento crucial para a sociedade brasileira: está diante da escolha de duas propostas muito diferentes. Em termos de direitos humanos, considerando a prática de cada um dos pleiteantes como governantes podemos esperar caminhos diferentes e até mesmo antagônicos.

Alckmin tende a restringir a agenda de direitos humanos. Sua proposta de endurecimento puro e simples da penalização como forma de enfrentar a violência e a crise do sistema penitenciário, sem qualquer proposta para modificação estrutural do sistema, patrocina retrocessos nos direitos civis e reforça o discurso de que direitos humanos são para humanos direitos. Aliás, já deu mostras claras dessa sua posição quando no governo de São Paulo, além de não ter promovido iniciativas no assunto, em ocasiões de grave conflito e de denúncia de violação, como em rebeliões na Febem e em presídios, foi a público para responsabilizar defensores/as de direitos humanos, até mesmo contra militantes do próprio MNDH, como se fossem seus patrocinadores e movendo processos contra eles, criminalizando-os.

Lula tende a alargar a agenda de direitos humanos, ampliando a compreensão da indivisibilidade dos direitos humanos e de sua presença em políticas diversas de inclusão social de segmentos historicamente excluídos do acesso à alimentação, à universidade, ao trabalho, reforçando a visão de que direitos humanos são conteúdos centrais da ação política. Deu mostras disso no governo quando promoveu várias políticas de inclusão social.

A diferença chave entre os dois candidatos está na concepção de direitos humanos: Alckmin tende para uma posição liberal-conservadora; Lula para uma posição mais aberta e ampla de direitos humanos.

Esperamos que a sociedade brasileira saiba discernir e optar pela alternativa que melhor servir à ampliação do processo de promoção e proteção dos direitos humanos e de reparação às suas violações; que efetivamente tenha compromisso com a ampliação do investimento público em direitos humanos e que, de modo especial compreenda os direitos humanos como conteúdo central das políticas e ações do Estado. Esperamos que o Presidente da República que será eleito seja, antes de tudo, o primeiro agente na promoção dos direitos humanos. Esperamos que ouça com acuidade os anseios da sociedade brasileira e promova a ampliação da participação direta e avanços na realização dos direitos humanos.

Como movimento social, estamos vigilantes e a postos para a defesa intransigente dos direitos humanos de todos e todas e de cada um e de cada uma dos/as brasileiros/as. Conclamamos nossas organizações filiadas em todo país a ajudarem ao povo brasileiro a escolher o presidente que é melhor para os direitos humanos. Reafirmamos nosso compromisso com o fortalecimento da luta popular e com a certeza de que somente ela fará valer efetivamente e cada vez mais todos os direitos humanos.

Brasília, 18 de outubro de 2006.

Conselho e Coordenação Nacional
Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH)

25 outubro 2006

Lucidez e Coerência
Chico Buarque



*A cada uma de suas entrevistas, o compositor e cantor Chico Buarque de Holanda sempre surpreende por sua lucidez e enorme coerência. Agora, no lançamento do seu novo CD, Carioca, ele novamente brilhou ao falar sobre a situação política brasileira. A direita deve ter ficado furiosa, com saudades dos tempos da ditadura militar que o perseguiu e censurou; a esquerda "rancorosa" deve ter ficado ressentida com seus irônicos comentários; já os setores da sociedade que, mesmo críticos das limitações do governo Lula, não perderam a perspectiva, ganharam novo impulso criativo para a sua atuação. Mas é melhor deixar o poeta falar, pinçando trechos das suas entrevistas na revista Carta Capital e no jornal Folha de S.Paulo:

Sobre a crise política
É claro que esse escândalo abalou o governo, abalou quem votou no Lula, abalou sobretudo o PT. Para o partido, esse escândalo é desastroso. O outro lado da moeda é que disso tudo pode surgir um partido mais correto, menos arrogante. No fundo, sempre existiu no PT a idéia de que você ou é petista ou é um calhorda. Um pouco como o PSDB acha que você ou é tucano ou é burro (risos).
Agora, a crítica que se faz ao PT erra a mão. Não só ao PT, mas principalmente ao Lula. Quando a oposição vem dizer que se trata do governo mais corrupto da história do Brasil é preciso dizer ‘espera aí’. Quando aquele senador tucano canastrão diz que vai bater no Lula, dar porrada, quando chamam o Lula de vagabundo, de ignorante - aí estão errando muito a mão. Governo mais corrupto da história? Onde está o corruptômetro? É preciso investigar as coisas, sim. Tem que punir, sim. Mas vamos entender melhor as coisas. A gente sabe que a corrupção no Brasil está em toda parte. E vem agora esse pessoal do PFL, justamente ele, fazer cara de ofendido, de indignado. Não vão me comover...

Preconceito de classe
O preconceito de classe contra o Lula continua existindo - e em graus até mais elevados. A maneira como ele é insultado eu nunca vi igual. Acaba inclusive sendo contraproducente para quem agride, porque o sujeito mais humilde ouve e pensa: ‘Que história é essa de burro!? De ignorante!? De imbecil!?’. Não me lembro de ninguém falar coisas assim antes, nem com o Collor. Vagabundo! Ladrão! Assassino! - até assassino eu já ouvi. Fizeram o diabo para impedir que o Lula fosse presidente. Inventaram plebiscito, mudaram a duração do mandato, criaram a reeleição. Finalmente, como se fosse uma concessão, deixaram Lula assumir. ‘Agora sai já daí, vagabundo!’. É como se estivessem despachando um empregado a quem se permitiu o luxo de ocupar a Casa Grande. ‘Agora volta pra senzala!’. Eu não gostaria que fosse assim.
Eu voto no Lula!

Economia
A economia não vai mudar se o presidente for um tucano. A coisa está tão atada que honestamente não vejo muita diferença entre um próximo governo Lula e um governo da oposição. Mas o país deu um passo importante elegendo Lula. Considero deseducativo o discurso em voga: ‘Tão cedo esses caras não voltam, eles não sabem fazer, não são preparados, não são poliglotas’. Acho tudo isso muito grave. Hoje eu voto no Lula. Vou votar no Alckmin? Não vou. Acredito que, apesar de a economia estar atada como está, ainda há uma margem para investir no social que o Lula tem mais condições de atender. Vai ficar devendo, claro. Já está devendo. Precisa ser cobrado. Ele dizia isso: ‘Quero ser cobrado, vocês precisam me cobrar, não quero ficar lá cercado de puxa-sacos’. Ouvi isso dele na última vez que o vi, antes dele tomar posse, num encontro aqui no Rio.

Sobre o PSOL
Percebo nesses grupos um rancor que é próprio dos ex: ex-petista, ex-comunista, ex-tudo. Não gosto disso, dessa gente que está muito próxima do fanatismo, que parece pertencer a uma tribo e que quando rompe sai cuspindo fogo. Eleitoralmente, se eles crescerem, vão crescer para cima do PT e eventualmente ajudar o adversário do Lula.

Papel da mídia
Não acho que a mídia tenha inventado a crise. Mas a mídia ecoa muito mais o mensalão do que fazia com aquelas histórias do Fernando Henrique, a compra de votos, as privatizações. O Fernando Henrique sempre teve uma defesa sólida na mídia, colunistas chapa-branca dispostos a defendê-lo a todo custo. O Lula não tem. Pelo contrário, é concurso de porrada para ver quem bate mais.

* Jornalista, editor da revista Debate Sindical
Canción por la unidad latinoamericana
Pablo Milanés

El nacimiento de un mundo
Se aplazó por un momento
Fue un breve lapso del tiempo
Del universo un segundo

Sin embargo parecia
Que todo se iba a acabar
Con la distancia mortal
Que separó nuestras vidas

Realizavan la labor
De desunir nossas mãos
E fazer com que os irmãos
Se mirassem com temor

Cunado passaron los años
Se acumularam rancores
Se olvidaram os amores
Parecíamos estraños

Que distância tão sofrida
Que mundo tão separado
Jamás se hubiera encontrado
Sin aportar nuevas vidas

E quem garante que a História
É carroça abandonada
Numa beira de estrada
Ou numa estação inglória

A História é um carro alegre
Cheio de um povo contente
Que atropela indiferente
Todo aquele que a negue

É um trem riscando trilhos
Abrindo novos espaços
Acenando muitos braços
Balançando nossos filhos

Lo que brilla con luz propia
Nadie lo puede apagar
Su brillo puede alcanzar
La oscuridad de otras costas

Quem vai impedir que a chama
Saia iluminando o cenário
Saia incendiando o plenário
Saia inventando outra trama

Quem vai evitar que os ventos
Batam portas mal fechadas
Revirem terras mal socadas
E espalhem nossos lamentos

E enfim quem paga o pesar
Do tempo que se gastou
De las vidas que costó
De las que puede costar

Já foi lançada uma estrela
Pra quem souber enxergar
Pra quem quiser alcançar
E andar abraçado nela

Já foi lançada um estrela
Pra quem souber enxergar
Pra quem quiser alcançar
E andar abraçado nela
O PODER E OS SEM-PODER
Leonardo Boff

A atual campanha para presidência se reveste de certa dramaticidade. É mais do que escolher um político para ocupar o centro de poder estatal. O que está em jogo são dois projetos de Brasil. Um representa o projeto dos detentores do poder, do ter, do saber e da comunicação. Seus atores ocupam há séculos o espaço público e o Estado. Construíram um Brasil para si, de costas para o povo do qual, no fundo, sentem vergonha, pois o consideram ignorante, atrasado e "religioso".

O outro projeto é dos sem-poder, dos destituídos de cidadania e excluídos dos benefícios sociais. Historicamente, resistiram e se rebelaram, mas sempre foram derrotados. Entretanto, conseguiram se organizar e criar um contra poder com capacidade de disputar o mais alto cargo da Nação.

Geraldo Alckmin representa o projeto das classes dominantes. Na verdade, eles não possuem um projeto-Brasil, pois o consideram ultrapassado. Agora, vigora o projeto-mundo no qual o Brasil deve se inserir mesmo como sócio menor. Seguem as receitas do neoliberalismo que implicam o enfeudamento da política pela economia, aprofundando as desigualdades sociais. Esse projeto foi implantado durante o governo FHC. Se vitorioso Alckmin o retomará com fervor.

Lula representa o projeto alternativo. Cansado das elites, o povo votou em si mesmo elegendo Lula como presidente. Carismático, tentou, com relativo sucesso, fazer uma transição: de um Estado elitista e neoliberal para um Estado republicano e social. Para salvar o Titanic que ameaçava afundar, teve que fazer concessões à macroeconomia de viés neoliberal, mas deu, como nenhum governo antes, centralidade ao social com programas que beneficiaram cerca de 40 milhões de pessoas.

Desta opção pelo social pode nascer um outro tipo de Brasil com uma democracia inclusiva que resgate a dignidade de milhões de excluídos e marginalizados.O significado histórico de reeleger Lula é permitir-lhe acabar esse começo de construção de um outro Brasil possível.

*Leonardo Boff é Escritor e Teólogo.

23 outubro 2006

Moralismo, ineficiência e atraso
LEONARDO AVRITZER*

GERALDO ALCKMIN é um candidato conservador nos dois principais significados que o termo permite: no de preservar o status quo dos setores dominantes da sociedade brasileira e no de capitanear uma reação conservadora nas poucas áreas nas quais o Brasil mudou nos últimos anos: nos campos do pluralismo moral e religioso, das políticas heterodoxas na economia e das políticas de direitos humanos. Permitam-me elaborar de que maneira Alckmin é conservador em cada um deles.
Nos governos FHC e Lula, o Brasil avançou significativamente na separação entre religião e Estado e na aceitação do pluralismo religioso. Essa é uma dimensão central do republicanismo e de um importante processo de pluralização moral da sociedade brasileira. Alckmin parece ser, nesse quesito, o mais conservador dos candidatos à Presidência desde a redemocratização. Suas relações com o Opus Dei incluem, segundo a revista "Época", ter um confessor ligado à ordem e realizar reuniões periódicas com membros da ordem no Palácio dos Bandeirantes. Essas relações revelam uma mistura perigosa entre religião e Estado e entre público e privado.
Além disso, o Opus Dei é conhecido internacionalmente por ligações escusas e secretas com o poder político. Alckmin rejeitou falar sobre suas relações com o Opus Dei na campanha. O Brasil pode se surpreender com essas relações caso escolha Alckmin.
No que diz respeito à questão econômica, um consenso tem se formado no Brasil nos últimos anos acerca dos limites das políticas neoliberais. Os quatro anos do segundo mandato FHC foram os anos de menor crescimento econômico na história recente do país. O crescimento nos últimos quatro anos foi um pouco melhor, mas aquém do que o país necessita.
Nesse momento, o consenso maior dentro do governo Lula é por uma política mais agressiva de crescimento econômico. Alckmin tende a reverter o debate econômico na direção da retomada das privatizações. Segundo a revista "Exame", Alckmin estaria muito próximo de economistas liberais ortodoxos como Malan, Armínio Fraga e José Pastore. Suas prioridades para a economia seriam o corte de gastos públicos, uma nova reforma previdenciária e a retomada das privatizações.
No caso mais conhecido de privatização hoje em São Paulo, o da linha 4 do Metrô, o Estado investirá 70% dos recursos, e a receita tarifária ficará integralmente com o parceiro privado por 30 anos. Esse é o padrão de privatização que podemos esperar em uma era Alckmin. Ele certamente significará índices muito baixos ou nulos de crescimento econômico motivados pelo fundamentalismo neoliberal.
O último ponto é a política de segurança e de direitos humanos. Alckmin tem uma política de segurança que, ao mesmo tempo, desrespeita os direitos humanos e é ineficiente. A sua apologia da violência policial e sua política carcerária parecem ter sido capazes de conjugar o pior dos dois mundos. O resultado todos conhecem: o aumento da população carcerária do Estado somente ampliou a vulnerabilidade do cidadão comum e sua insegurança física.
Nesse caso, o conservadorismo tem duas facetas: a incapacidade de pensar uma política de segurança moderna, aliada ao desrespeito secular das elites pelos direitos da população mais pobre. O resultado, mais uma vez, é uma política conservadora tanto nas suas concepções morais quanto no seu resultado administrativo.
Responder se Alckmin é um candidato conservador não significa necessariamente fazer um juízo de valor acerca do conservadorismo. Afinal, existem momentos nos quais conservar elementos da ordem política pode ser considerado uma atitude positiva.
Mas não é esse o caso da candidatura Alckmin. Ela é conservadora em dois sentidos muito específicos: no de querer retornar a um status quo que não permitirá o crescimento econômico nos próximos anos e no de querer insistir em valores morais próprios de uma sociedade oligárquica que contrariam uma agenda de ampliação de direitos no país.

*LEONARDO AVRITZER, 47, mestre em ciência política e doutor em sociologia, é professor do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).
Trova do Vento que Passa


Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre
Sonho

Não me veio o sono enquanto não me chegavas,
adormeci assim que tuas mãos me tocaram os cabelos
e sonhei de corpo inteiro.

22 outubro 2006

.. No próximo domingo estaremos elegendo o nosso Presidente da Republica e em alguns estados o Governador.. Fiquem bem atentos e de olhos bem abertos à atitudes golpistas!

A TRAMA
FATOS OCULTOS
A mídia em especial a REDE GLOBO, omitiu informações cruciais na divulgação do dossiê e contriobuiu para levar a disputa ao segundo turno.

NÃO DEU NO JORNAL NACIONAL
Por que uma reportagem sobre Abel Pereira, produzida e editada, não foi ao ar? E outras nove perguntas a Ali Kamel
por Mauricio Dias

Na quarta-feira 11, a revista CartaCapital encaminhou 10 perguntas à Rede Globo, indagando sobre os critérios da cobertura jornalística adotados no Jornal Nacional durante o primeiro turno da eleição presidencial.

Eis as questões dirigidas ao jornalista Ali Kamel, diretor-executivo de Jornalismo da emissora:

1. Qual foi o critério adotado para a distribuição de tempo e espaço para os candidatos? Qual o princípio que norteou o critério adotado?

2. O critério adotado para esta eleição presidencial foi o mesmo das eleições anteriores ou, mais precisamente, o mesmo da eleição de 2002?

3. Por que, a partir do estouro do escândalo do dossiê, o Jornal Nacional não citou que 70% das ambulâncias da Planam foram liberadas na gestão do PSDB?

4. O Jornal Nacional, como ocorreu na edição de 23 de setembro, faz referência, com precisão, aos petistas Oswaldo Bargas, Jorge Lorenzetti e Expedito Veloso como “assessores da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, mas, quando se refere, nesse mesmo dia, às relações do senhor Barjas Negri com Luiz Antonio Vedoin, da máfia das ambulâncias, diz que ele é “ex-ministro do governo passado”? Não há, no caso, um tratamento desigual? (Em várias edições essa situação se repete.)

5. Por que, em nenhum momento, o JN não destacou um repórter para a investigação das relações de Barjas Negri e Abel Pereira em Piracicaba?

6. Temos informações seguras, que podem ser confirmadas pela equipe do SP-TV, de que um diretor da Globo vetou perguntas politicamente incômodas para o candidato a governador José Serra.

7. Na cobertura das eleições para o governo de São Paulo, os repórteres receberam a orientação de fazer entrevistas com os candidatos, nas ruas, com perspectivas propositivas. Ao candidato do PT, Aloizio Mercadante, não era dado espaço para falar do PCC e da perda de controle da ação policial no estado. Contrariamente, na campanha presidencial, era dado espaço amplo para críticas (justas ou injustas, não entramos no mérito) ao candidato Lula.

8. Sabe-se que foram produzidas matérias (pelo menos uma) sobre Abel Pereira. A reportagem foi editada, mas não foi ao ar. Qual o critério adotado nesse caso?

9. A Globo tem o áudio da conversa do delegado que entregou as fotos do dinheiro para a imprensa, mas não o divulgou. Além disso, adotou critérios diferentes para divulgar as fotos (obtidas ilegalmente) na véspera da eleição e não divulgar o dossiê de Cuiabá sob a alegação de que o material estava sob suspeita.

10. É fato que até hoje os telespectadores do JN não viram o governador eleito de São Paulo, José Serra, discursar na cerimônia de entrega das ambulâncias, ao lado de deputados sanguessugas. Por quê?

Eis a resposta do jornalista Ali Kamel:
“Se tem uma coisa que tem alegrado a nós, jornalistas da TV Globo, é o alto grau de isenção que temos conseguido imprimir na cobertura dessas eleições. Essa nossa convicção vem de três fontes: nossa própria avaliação, que é diária e procura verificar se temos nos conduzido com a isenção a que nos propusemos; a avaliação do público, que nos chega diariamente por nosso Centro de Atendimento ao Telespectador, com milhares de telefonemas e e-mails, e pela manifestação de todos os partidos políticos que têm atestado a isenção de nossos telejornais.

Uma das mais recentes manifestações nesse sentido veio do próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, em carta à TV Globo, justificando a ausência no debate na antevéspera da eleição, escreveu: ‘Aproveito para reafirmar o meu respeito à TV Globo e parabenizá-la pelo trabalho isento que vem fazendo na cobertura destas eleições’”
.

Texto Extraído da Revista Carta Capital
Para uma leitura mais completa AQUI
No dia que eu encontrei um poeta... ou será um anjo?



Eu me chamo Marcos Asas


Eu me chamo Marcos Asas,
e sou nordestino que não tolera desacato.
viajo mais que certos tipos de mato.
Já joguei fora todos os "pode" e "não
pode"
Mas continuo selando contrato
Com fios do meu bigode.

Minhas asas foram roubadas de um anjo,
e assim me construi de retalhos:
Dedo de anjo, boca de diabo, a sinceridade do vinho de Baco,
Pitada de Dionísio e ar de espírito
zombeiteiro
Poeta, não sou o último nem o primeiro.
mas, eu sou escorreguento feito visgo de
quiabo,
E mais convencido que Narciso,
Na beira do lago

Só porque roubei o anjo,
volta-e-meia Deus me castiga.
Todo mês me arrebenta as cordas do banjo,
ou então me enche o bucho de lumbriga.

Cerveja não bebo;
abro uma garrafa, mas do gargalo não passa.
Depois de amanhã faz dois dias
Que não tomo cachaça.

Nessa vida três paixões:
Poesia, mulher e farinha.
Até hoje não sei
Qual das três é a verdadeira ambrosia.

Converso de tudo, leio de tudo
Mas não acredito sempre na imprensa.
Ás vezes até a cor da política
Me sobe à cabeça.

Mas canto meus poemas por aí.
Não quero ter livro na estante,
P´rá servr de alimento p´rás traças
prefiro ser conhecido nas praças.

Não sou feito de carvão,
mas também me ponho em brasa.
quando alço vôo na poesia,
Eu me chamo Marcos Asas

em "Um Salto. Um Pulo"

18 outubro 2006

Ausência



Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada.
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.


VINICIUS DE MORAES
ANTOLOGIA POÉTICA

07 outubro 2006

No eco de notas musicais nasceu...
Sintonia

Movimentos,
Nos olhos que se fecham e certamente sonham...
E desejam destes sonhos, verdadeiros
No deslizar dos dedos por sobre uma superfície metálica,
Aquecida, sonora
Na busca do ritmo perfeito
Da nota precisa, da hora exata
Do corpo que levemente se move
No balanço profundo da alma
Em acordes que já de perfeitos...
Se calam.

04 outubro 2006

OS MÁRTIRES

Pedaços de lembranças,
Passam diante de mim
No descuido do tempo
Repasso a vida ...

De quando livre vivia a festa, os amores e as dores ...
invadida a terra
Resistir era preciso!

Fui Tupac Amaru amarrado a quatro cavalos
Na Praça dos Prantos
Micaela, mulher amada, puxada, arrastada, assassinada
Fui seu filho Fernando, ainda criança, obrigado a assistir ao terrível espetáculo
Fui caçada na África, embarcada em navios
Para nesta terra morrer na lavoura ou vendida
Ou na chibata
Fui Zumbi nos Quilombos
Gregório arrastado na praça até a janela da mulher amada
Fui Henrique esquartejado
Fui Romero e sabia de que lado estava
Fui Herzog torturado, Victor Jara amordaçado
Domitila exilada
Fui Galdino queimado vivo
Cacique Chicão de morte encomendada
Margarida. herdeira de tantas lutas, fui morta
com tiro na cara

Pedaços de vida em pedaços
Quantas Áfricas? Quantos Méxicos?
Quantas Américas?
Quanto sangue mais é preciso?
Quantos filhos desta terra
mata a fome do mundo Rico?

Goretti Santos