Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente.
Traduzir uma parte na outra parte - que é uma questão de vida ou morte -
será arte?
Ferreira Gullar
28 novembro 2006
27 novembro 2006
25 novembro 2006

Máquina do Tempo
O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.
António Gedeão
23 novembro 2006
Se existimos é pelas vibrações do ar,
simples convicção íntima de estar aqui,
um acorde ingénuo, perfeito de harmonias.
Por isso semearemos na terra habituada
às bodas primaveris, aos bárbaros sóis,
a nossa alegria de crianças, inextinguível,
para que se cumpra a profecia dos ciclos,
o contentamento de acariciarmos uma flor.
José Vieria Calado
Obrigada por este poema...
21 novembro 2006
19 novembro 2006
Havia o cheiro da terra. De terra molhada e um leve e delicioso cheiro de mato no ar... e embora não conhecesse aquele lugar sentia-se tranquila em continuar o caminho. Devagar, enquanto admirava as árvores e ouvia atentamente os ruídos, o vento tocava seu corpo causando-lhe um certo prazer e timidamente deixava escapar um sorriso misterioso e cheio de beleza em seu rosto iluminado de sol. Então, perto do lago decidiu parar um pouco.. deitar-se. Já muito forte estava o sol. Levantou-se. Aproximou-se do lago e uma a uma livrou-se das peças de sua roupa.. estava nua, livre, entregue. Assim entrou no lago.. refrescou a alma. Brincou com a água, sorriu alto para que os pássaros guardassem sua voz... recitou poemas, os seus preferidos. Sorriu, sorriu, gargalhou. Ainda era necessário que as árvores, os pássaros e a terra decorassem sua voz e nelas guardassem seu eco. Mas também chorou. Chorou baixinho, para que eles não conhecessem o pranto, a saudade, a dor. Refeita para que deste momento, deste ultimo momento, só restasse prazer, beleza e poesia, vestiu-se de imensidão e mergulhou. Mergulho profundo e definitivo. Encontro com o silencio poético de tudo.
08 novembro 2006
La luna se puede tomar a cucharadas
Ou como una cápsula cada dos hora.
Es bueno como hipnótico y sedante
A los que se han intoxicado de filosofia.
Un pedazo de luna en el bolsillo
Es mejor amuleto que la pata de conejo:
Sirve para encontrar a quien se ama,
Para ser rico sin que lo sepa nadie
Y para alejar a los médicos y las clínicas.
Se pode dar de postre a los niños
Cuando no se han dormido,
Y unas gotas de luna en los ojos de los ancianos
Pon una hoja tierna de la luna
Y mirarás lo que quieras ver.
Lleva siempre un frasquito del aire de la luna
Para cuando te ahogues,
A los presos y a los desencantados.
Para los condenados a muerte
Y para los condenados a vida
No hay mejor estimulante que la luna
En dosis precisas y controladas
Jaime Sabines
A LUA
A lua se pode tomar a colheradas
Ou como uma cápsula cada duas horas.
É bom como hipnótico e sedante
Aos que estão intoxicados de filosofia.
Um pedaço de lua no bolso
É melhor amuleto que a pata de coelho;
Serve para encontrar a quem se ama,
Para ser rico sem que ninguém o saiba
E para afastar aos médicos e as clínicas.
Se pode dar de sobremesa às crianças
Quando não estão dormindo,
E umas gotas de lua nos olhos dos anciãos
Põe uma folha de ternura da lua
E enxergarás o que queiras ver.
Leva sempre um frasquinho do ar da lua
E reparta a chave da lua
Com os presos e os desencantados.
Para os condenados a morte
E para os condenados a vida
Não há melhor estimulante que a lua
Em doses precisas e controladas.
Jaime Sabines
(tradução de Anibal Beça)









