01 dezembro 2006

Hora Exata


óleo: fratura exposta
fernando pacheco

Reconheço em mim uma sensibilidade atenta. Natural. De quem levemente se embala com o poema sonoro de uma cidade e se encanta com as cores das pessoas que andam e passam. Que passam por mim. Do céu que beija o mar e do mar que se deita por sobre a terra. Saboreio o sal. Absorvo maresia e engravido fantasia.
Mas há dias em que se vive o momento preciso, a hora exata. Onde nem de mim me escondo. Sou exposta como fratura. Em carne viva. Reconheço, admito fraqueza, decepção, impotência, medo e até melancolia. Já sou eu sem ser. Sem títulos, sem postos, carreira e profissão. Sem pernas nem mãos. E assim... inteira, entregue. Isenta.
Há dias que o silencio me atordoa e os soluços me aliviam.

Há o momento preciso
A hora exata, rara
Da nudez total
Em carne viva

Há a hora precisa
De momento inexato
Fantasia

28 novembro 2006

As correntes que nos invadiram
foram invisíveis - não nos beijamos, nem sequer
nos tocamos no rosto. Mesmo assim nos conhecemos.

Álvaro Pacheco

27 novembro 2006

Mário Cesariny
(1923 - 2006)


"Queria de ti um país de bondade e de bruma
Queria de ti o mar de uma rosa de espuma"

25 novembro 2006



Máquina do Tempo


O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.

Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.

António Gedeão

24 novembro 2006

Sou pássaro


Ás vezes penso que sou pássaro.
E acredito nisso todas as vezes que o vento me toca a pele
E tenho a alma a flutuar...

Não.. não me digas que não é verdade
Eu quero ser pássaro. sou!

23 novembro 2006

Se existimos

Se existimos é pelas vibrações do ar,
simples convicção íntima de estar aqui,
um acorde ingénuo, perfeito de harmonias.

Por isso semearemos na terra habituada
às bodas primaveris, aos bárbaros sóis,
a nossa alegria de crianças, inextinguível,
para que se cumpra a profecia dos ciclos,
o contentamento de acariciarmos uma flor.

José Vieria Calado

Obrigada por este poema...
beijos.

21 novembro 2006

Aqui e ali


Já faz tanto tempo não andamos pelas calçadas da minha cidade. Nem da tua. A brisa hoje só a mim conta os seus segredos.
Já faz tanto tempo não sorrimos com as brincadeiras das crianças nas ruas. O sol só a mim revela uma sombra de menina.
Já faz tempo não refrescamos o calor com aquela bebida gelada. Hoje, minha garganta não encontra oásis.
Já faz tanto tempo... e no entando percebo que nunca partiste. Permaneces aqui e ali por onde estivemos.

19 novembro 2006

Silêncio Poético

"Ser Cósmico"
Lia Knapp


Havia o cheiro da terra. De terra molhada e um leve e delicioso cheiro de mato no ar... e embora não conhecesse aquele lugar sentia-se tranquila em continuar o caminho. Devagar, enquanto admirava as árvores e ouvia atentamente os ruídos, o vento tocava seu corpo causando-lhe um certo prazer e timidamente deixava escapar um sorriso misterioso e cheio de beleza em seu rosto iluminado de sol. Então, perto do lago decidiu parar um pouco.. deitar-se. Já muito forte estava o sol. Levantou-se. Aproximou-se do lago e uma a uma livrou-se das peças de sua roupa.. estava nua, livre, entregue. Assim entrou no lago.. refrescou a alma. Brincou com a água, sorriu alto para que os pássaros guardassem sua voz... recitou poemas, os seus preferidos. Sorriu, sorriu, gargalhou. Ainda era necessário que as árvores, os pássaros e a terra decorassem sua voz e nelas guardassem seu eco. Mas também chorou. Chorou baixinho, para que eles não conhecessem o pranto, a saudade, a dor. Refeita para que deste momento, deste ultimo momento, só restasse prazer, beleza e poesia, vestiu-se de imensidão e mergulhou. Mergulho profundo e definitivo. Encontro com o silencio poético de tudo.

12 novembro 2006

Quem te ensinou a nadar.. ?
















.. foi, foi marinheiro foi o peixinho do mar!

(brigadu Saloca!!)

10 novembro 2006

"Página branca onde escrevo. Único espaço
de verdade que me resta. Onde transcrevo
o arroubo, a esperança, e onde tarde
ou cedo deposito meu espanto e medo."

Affonso Romano de sant´anna

08 novembro 2006



LA LUNA

La luna se puede tomar a cucharadas
Ou como una cápsula cada dos hora.
Es bueno como hipnótico y sedante
Y también alivia
A los que se han intoxicado de filosofia.
Un pedazo de luna en el bolsillo
Es mejor amuleto que la pata de conejo:
Sirve para encontrar a quien se ama,
Para ser rico sin que lo sepa nadie
Y para alejar a los médicos y las clínicas.
Se pode dar de postre a los niños
Cuando no se han dormido,
Y unas gotas de luna en los ojos de los ancianos
Ayudan a bien morir.

Pon una hoja tierna de la luna
Debajo de tu almohada
Y mirarás lo que quieras ver.
Lleva siempre un frasquito del aire de la luna
Para cuando te ahogues,
Y dale la llave de la luna
A los presos y a los desencantados.
Para los condenados a muerte
Y para los condenados a vida
No hay mejor estimulante que la luna
En dosis precisas y controladas

Jaime Sabines


A LUA

A lua se pode tomar a colheradas
Ou como uma cápsula cada duas horas.
É bom como hipnótico e sedante
E também alivia
Aos que estão intoxicados de filosofia.
Um pedaço de lua no bolso
É melhor amuleto que a pata de coelho;
Serve para encontrar a quem se ama,
Para ser rico sem que ninguém o saiba
E para afastar aos médicos e as clínicas.
Se pode dar de sobremesa às crianças
Quando não estão dormindo,
E umas gotas de lua nos olhos dos anciãos
Ajudam na boa morte.

Põe uma folha de ternura da lua
Debaixo de teu travesseiro
E enxergarás o que queiras ver.
Leva sempre um frasquinho do ar da lua
Para quando te asfixies,
E reparta a chave da lua
Com os presos e os desencantados.
Para os condenados a morte
E para os condenados a vida
Não há melhor estimulante que a lua
Em doses precisas e controladas.


Jaime Sabines
(tradução de Anibal Beça)

03 novembro 2006

Como se fosse pouco


Como pensar em ti me fosse pouco,
meu corpo reclama tuas mãos
meu olhos os teus,
meu nariz reclama teu cheiro
e minha boca teu sabor.

Como se sonhar me fosse pouco.
És tu uma inesperada realidade