25 janeiro 2007

Menina de olhos de estrelas


Acomodou-se como pode em seu barquinho de noz, ajeitou as velas e suas tranças, guardou em um canto com muito cuidado sua caixinha e partiu.. o vento a levou. Navegou por muito tempo. Um tempo sem tempo. Certa noite, de profundo silêncio, abriu cuidadosamente a caixinha e deixou que de lá saíssem milhares de estrelas.. deitou-se a admirar o céu e a verificar se lá bem acomodadas todas estavam. Um brilho imenso fez aquela noite escura parecer dia.
Minha mãe me ninava com uma canção que dizia que seus olhos eram duas estrelas e em seu coração havia barulho de mar...
Dizem que em noites estreladas se pode ver seu barco no mar, outros, dizem, que ela nunca esteve por lá.

24 janeiro 2007


Não há nenhuma diferença entre aquilo que aconteceu mesmo e aquilo que fui distorcendo com a imaginação, repetidamente, repetidamente, ao longo dos anos. Não há nenhuma diferença entre as imagens baças que lembro e as palavras cruas, cruéis, que acredito que lembro, mas que são apenas reflexos construídos pela culpa. O tempo, conforme um muro, uma torre, qualquer construção, faz com que deixe de haver diferenças entre a verdade e a mentira. O tempo mistura a verdade com a mentira. Aquilo que aconteceu mistura-se com aquilo que eu quero que tenha acontecido e com aquilo que me contaram que aconteceu. A minha memória não é minha. A minha memória sou eu distorcido pelo tempo e misturado comigo próprio: com o meu medo, com a minha culpa, com o meu arrependimento.

Excerto de Cemitério de Pianos
Jose Luis Peixoto

23 janeiro 2007

Silêncio (in)compreendido
... mesmo calada a boca, resta o peito - Chico Buarque


Por que me calo?
se mesmo calada ouves a minha voz
ouves as batidas do meu coração
se sentes o que sinto,
Por que te calas?

22 janeiro 2007

Sua "Justiça" Não Me Assusta...
Me Enoja e Angustia...


George W. Bush
eleito para dois mandatos de presidente, pelo povo norte-americano.

Desejo que um dia você perceba que o cargo não é o homem, e que em nome de cargo algum, de respeitabilidade adquirida alguma, ninguém pode deixar de agir como só mais um ser vivo, com obrigações solidárias, responsabilidades para com todos os outros, e permissividade ao amor indiscriminado.
Desejo que um dia, você e o povo que o escolheu para líder, percebam que nem todos os povos têm como alvo das suas energias, o ganhar e juntar, o comprar e mostrar, o armar-se e atacar.
Desejo que essa postura típica dos poderosos financeiramente, militarmente, ou por estarem eventualmente investidos de um cargo que lhes dêm poder de decisão sobre outras vidas, possa dar espaço ao respeito pelas diferenças ideológicas, culturais, religiosas, econômicas. Sem interesses disfarçados ao apoiá-las, nem mentiras deslavadas ao angariar provas para rechaçá-las.
Que toda essa arrogância e ganância que norteiam suas decisões, lhe façam um dia sentir, o que a maioria dos homens sentiria por agir assim: vergonha;
Que a capacidade de matar, destituir, torturar, que agora não se faz mais acompanhar sequer da costumeira desfaçatez dos seus antecessores, seja substituída pela razão de que cada povo, por mais simples que pareça ser, tem o direito de fazer suas próprias escolhas, dentro das suas limitações e tradições, e no seu próprio ritmo;
Que quando se diz que a felicidade independe de tantos excessos, não é conversa de quem é pobre, e essa pobreza uma resultante da incapacidade. Isso também pode ser uma opção. Uma opção por respeito ao povo vizinho, à pessoa vizinha, à natureza. Uma opção pela felicidade, simplesmente. Felicidade resultante da capacidade de perceber a totalidade da vida sem fronteiras nacionais e internacionais, sem assaltos às riquezas de outros povos e a compra do silêncio das testemunhas; sem exibicionismos, sem extravagâncias, prepotência, e tantos outros adjetivos semelhantes que, hoje mais do que nunca, servem para qualificar você e seu povo - com poucas excessões.

19 janeiro 2007

09 de janeiro de 2007



Como naquela tarde tinha ido fazer a minha visita habitual ao obstetra achei que aquela dorzinha no pé da barriga fosse normal.. afinal ele tinha tocado nela. Mas, logo que cheguei em casa e me preparei pra ver um filminho tive uma dor bem forte.. me levantei e constatei que a hora era aquela.. ele queria vir ao mundo e eu estava entre ansiosa, feliz e um pouco assustada com aquela situação nova para mim. Mas, peguei minhas coisas calmamente, tomei um banho tranqüilo, levei comigo minhas musicas clássicas para relaxar e fui lembrando de tudo o que a minha mãe há poucos meses antes havia me ensinado. Chegamos na maternidade e pela evolução das coisas tive que passar na frente de uma outra parturiente que ia fazer uma cesariana.. Diogo tinha pressa. Meu médico riu de mim quando me viu chegar na sala de cirurgia e estranhou que um primeiro parto pudesse evoluir assim tão rapidamente. Entre a primeira dor forte e o nascimento do meu primeiro filho só se passaram 4 horas. E lá estava ele: pequenininho, magrinho mas saudável e tranqüilo apesar dos momentos difíceis que passamos antes do seu nascimento. Eu me sentia feliz mesmo tendo perdido a menos de dois meses a minha mãe, o meu porto seguro, a minha referência. Mas pelo que se seguiu ela deve ter permanecido ao nosso lado. Eu e meu filho tínhamos uma tranqüilidade especial. Ele dormia quase o dia todo e de noite acordava religiosamente de 3 em 3 horas pra mamar mas dormia em seguida sem dar nenhum tipo de trabalho.

Fomos crescendo os dois. Aprendendo um com o outro. Somos os dois geminianos.. parece que nos entendemos muito bem. Em seu primeiro aniversário era época da Copa do Mundo e a sua festa foi feita toda nesta temática. Como o prédio estava enfeitado com uma faixa enorme de cima a baixo alguns repórteres que passavam pela frente resolveram fazer uma filmagem e se depararam com nossa arrumação da festa e claro, terminamos dando entrevistas. Pensei: Este menino está marcado para a fama! Ríamos com aquela situação toda. Quando já era maiorzinho fez um grupo de foliões em Olinda abrirem uma grande roda para que ele frevasse..(frevar = dançar o frevo) daí mais televisão e entrevistas. Outra ocasião, assistindo a um treino do nosso clube de futebol mais uma vez foi entrevistado! Recentemente estávamos os dois e mais algumas pessoas da nossa família à espera que abrissem os portões de COVEST(Comissão do Vestibular das Universidades Federal e Federal Rural de Pernambuco) para verificarmos o listão dos aprovados. A ansiedade era imensa e eu, confesso, estava mais nervosa que ele. Quando os portões se abriram era tanta gente que tive medo de ser pisoteada e claro me perdi de todos mas, eu ainda vi a direção que ele tinha tomado. Fiquei no centro onde havia menos gente à espera que ele chegasse com a noticia. De longe vi que se aproximava. Estava pálido, sem cor nos lábios e me pareceu muito tenso. Achei que então ele não tinha sido aprovado e quando ele pode me ouvir perguntei aflita: então? Ele me olhou e me disse a velha e clássica frase:

_ Passei porra!!

Meu deus.. Ele passou!! Ele passou!! Não sei como explicar uma emoção desta. Gritei, nos abraçamos, pulamos, choramos.. eu já havia levado comigo uma tesoura e como é de praxe comecei a cortar o cabelo dele e percebi que então toda aquela nossa emoção tinha sido captada por uma câmera, mais uma vez, televisão e entrevistas. Muitos de nossos amigos souberam da boa noticia assim pela televisão.

Lembrei de toda essa trajetória em frações de segundo.. o meu bebê já agora entrava para a Universidade. Que sua carreira seja de muito sucesso! Parabéns meu filho!

18 janeiro 2007



Muitas mãos

Quando mãos se encontram?
Numa roda de ciranda pra dançar
no rufar dos tambores
no dedilhar de corpos e amores
no levar das almas que de leves.. voam!
No céu de brigadeiro que anuncia
o seu prazer de sentir,
o calor de se ter.
E se encontram...
se aceitam...
para eternizar momentos
de sons e toques
de felicidades e verdades
se unem entre dedos e palmas
sonhos sonâmbulos
de manter aceso o adolescer
o florescer, o amadurecer, o jorro, o gozo.
Todas as mãos podem se abrir e se fechar,
entrelaçar sentimentos,
sem medo, se doar.
Bacanas, mendigos,
todas as cores de mãos
podem pintar.


Alessandra, Mauh, Roberta, Liliana, Geane, Sergio

17 janeiro 2007



Verdade, mentira, certeza, incerteza...
Aquele cego ali na estrada também conhece estas palavras.
Estou sentado num degrau alto e tenho as mãos apertadas
Sobre o mais alto dos joelhos cruzados.
Bem: verdade, mentira, certeza, incerteza o que são?
O cego pára na estrada,
Desliguei as mãos de cima do joelho
Verdade mentira, certeza, incerteza são as mesmas?
Qualquer cousa mudou numa parte da realidade - os meus joelhos e as minhas mãos.
Qual é a ciência que tem conhecimento para isto?
O cego continua o seu caminho e eu não faço mais gestos.
Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual.
Ser real é isto.

F. Pessoa

16 janeiro 2007

O Frevo nasceu como fenômeno
de resistência popular

“Quem tem saudade, não está sozinho. Tem o carinho, da recordação...” já diziam os grandes mestres do frevo, Nelson Ferreira e Aldemar Paiva, na canção “Frevo da Saudade”. Mas é pouco provável que a saudade seja algo que possamos sentir em relação ao frevo. Inúmeras iniciativas têm procurado entendê-lo não só como expressão carnavalesca - e que completará 100 anos no dia nove de fevereiro de 2007 - mas como expressão da cultura popular brasileira. Entre elas está a solicitação feita pelas prefeituras de Olinda e Recife, encaminhada ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), para que o frevo seja reconhecido como patrimônio cultural brasileiro.

Susana Dias

13 janeiro 2007

Para Viver Um Grande Amor
Vinicius de Moraes / Toquinho



Eu não ando só
Só ando em boa companhia
Com meu violão
Minha canção e a poesia

Para viver um grande amor, preciso
É muita concentração e muito siso
Muita seriedade e pouco riso
Para viver um grande amor
Para viver um grande amor, mister
É ser um homem de uma só mulher
Pois ser de muitas - poxa! - é pra quem quer
Nem tem nenhum valor
Para viver um grande amor, primeiro
É preciso sagrar-se cavalheiro
E ser de sua dama por inteiro
Seja lá como for
Há de fazer do corpo uma morada
Onde clausure-se a mulher amada
E postar-se de fora com uma espada
Para viver um grande amor

Para viver um grande amor direito
Não basta apenas ser um bom sujeito
É preciso também ter muito peito
Peito de remador
É sempre necessário ter em vista
Um crédito de rosas no florista
Muito mais, muito mais que na modista
Para viver um grande amor
Conta ponto saber fazer coisinhas
Ovos mexidos, camarões, sopinhas
Molhos, filés com fritas, comidinhas
Para depois do amor
E o que há de melhor que ir pra cozinha
E preparar com amor uma galinha
Com uma rica e gostosa farofinha
Para o seu grande amor?

Para viver um grande amor, é muito
Muito importante viver sempre junto
E até ser, se possível, um só defunto
Pra não morrer de dor
É preciso um cuidado permanente
Não só com o corpo, mas também com a mente
Pois qualquer "baixo" seu a amada sente
E esfria um pouco o amor
Há de ser bem cortês sem cortesia
Doce e conciliador sem covardia
Saber ganhar dinheiro com poesia
Não ser um ganhador
Mas tudo isso não adianta nada
Se nesta selva escura e desvairada
Não se souber achar a grande amada
Para viver um grande amor!

Eu não ando só
Só ando em boa companhia
Com meu violão
Minha canção e a poesia

05 janeiro 2007

para Affonso...
(ROMANO DE SANT´ANNA)



Tenho pressa,
E saio imediatamente
Que não me acompanha
Minha sombra
E lá adiante quando dela
Sinto falta
Percebo o quanto
Tornei-me leve

03 janeiro 2007


A Lua Que Eu Te Dei
Herbert Vianna

Posso te falar dos sonhos, das flores
de como a cidade mudou
posso te falar do medo, do meu desejo
do meu amor
Posso falar da tarde que cai
E aos poucos deixa ver no céu a Lua
Que um dia eu te dei

Gosto de fechar os olhos
Fugir do tempo, de me perder
Posso até perder a hora
Mas sei que já passou das seis
Sei que não há no mundo
Quem possa te dizer
Que não é tua a Lua que eu te dei
Pra brilhar por onde você for
Me queira bem
Durma bem
Meu Amor
LULA DE NOVO COM A FORÇA DO POVO



"Tudo é muito parecido, mas tudo é profundamente diferente. É igual e diferente o Brasil; é igual e diferente o mundo; e, eu, sou também igual e diferente. Sou igual naquilo que mais prezo: no profundo compromisso com o povo e com meu país. Sou diferente na consciência madura do que posso e do que não posso, no pleno conhecimento dos limites. Sou igual no ímpeto e na coragem de fazer. Sou diferente na experiência acumulada na difícil arte de governar."

*trecho do discurso de posse