13 julho 2009

O aroma do tempo

tela: Mão e rosto. Yeda Arouche

O aroma atravessa o nariz e lá vem a memória do tempo. O cheiro de coisa conhecida, vivida, sofrida, realizada. As buzinas dos carros voltam a incomodar e o passo das pessoas continua apressado. Crianças gritam e brincam e choram chamando por suas mães. Os vendedores anunciam seus produtos desesperadamente em busca de alimentar sua família. O aroma que agora toma conta de tudo e do todo, do tudo de mim, se materializa em ti e nos sentimentos que me fizeste viver. Os sorrisos vieram largos, repetidos e os olhares outra vez foram profundos, reveladores. Os gestos são todo carinho e o toque, suave em minha pele. As bocas se tocaram e trocaram confidências, juras de amor eternas. Os corpos e pensamentos se fundiram. O aroma sou eu e o que vi e vivi. O aroma é tu em mim outra vez. O aroma é a sombra do tempo que ficou.
Aperto minhas mãos contra o rosto e uma ultima, profunda e definitivamente vez o aroma recria em mim o que em mim o tempo desfez.
E já não há perfumes, lembranças nem toques nem olhares, já não há lugares, pessoas, passos, abraços e choros e soluços. Já não há juras de amor.
Agora o tempo é tempo, presente, real e ausente de memórias. Agora o tempo é tempo sem tempo que já veio e se foi vezes sem conta.


Liliana Miranda
13.07.2009

06 julho 2009

Alma, garganta abaixo

Era cedo e naquele dia havia menos gente que o habitual. Nem sempre são as mesmas pessoas mas, dois ou três costumam estar lá mesma hora que eu. Quando me atraso um pouco percebo que há mais gente um pouco mais tarde. De fato percebo que quando chego ainda há movimento para deixar as coisas no lugar. Então os funcionários passam com bandejas de queijos, pães assado, café, leite e estas guloseimas que fazem parte do nosso café da manhã. Sentei no balcão como sempre já com minha xícara de café com leite e pedi para que providenciasse o meu habitual pão assado. Então, durante a minha espera pude perceber ao meu lado que as mãos dele tremiam muito. Mantinha quase sempre o rosto para baixo. Devia ter, pelo que disfarçadamente pude perceber, uns 40, 45 anos. Era jovem ainda. No balcão estavam duas garrafas de cerveja já vazias e um copo ainda cheio que ele foi bebendo muito rapidamente com aquelas mãos trêmulas. Era cedo ainda. E ele já tinha bebido duas garrafas de cerveja, embora uma bebida leve, para mim me parecia pesada para aquela altura do dia. Claro que não pude deixar de me sentir profundamente envolvida com aquela situação. No dia anterior, li mais sobre alcoolismo e busquei telefones e endereços de ajuda profissional. Há dois ou três anos tenho passado por este problema com uma pessoa muito querida. Como dói ver uma pessoa se destruir diante de um copo. Pela garganta abaixo se supõe desaparecer problemas, frustrações, dores, falta de amor entre outras coisas. Pela garganta também perdemos dignidade, respeito, clareza, força. Pela garganta se vai o que se acumula na alma pesando imensamente sobre um corpo frágil.
Quis chorar. Tentei não deixar transparecer meu incômodo, meu desespero, minha angústia. E ele tremia ao meu lado. Tremia também minha alma.

02 julho 2009

Nomeado o novo arcebispo da arquidiocese de Olinda e Recife

Quem é Dom Antonio Fernando Saburido?

Substituto foi auxiliar de Dom José no período de 2000 a 2005
Foto: Arquivo/Bárbara Wagner/JC Imagem

Há um ano atrás o arcebispo de Recife e Olinda Dom Jose Cardoso Sobrinho mais conhecido como o "Dom do Ódio" em contraste com seu antecessor dom Helder Camara, o "Dom do Amor", pediu sua renúncia por ter completado a idade máxima e só agora o pastor alemão, o Papa Bento XVI, nomeou outra pessoa para ocupar o cargo. Trata-se de Dom Antônio Fernando Saburido, 62 anos. Ele é pernambucano, nascido no Cabo de Santo Agostinho e foi ordenado padre pela Ordem de São Bento (OSB) em 1978. Nomeado bispo auxiliar de Olinda e Recife, recebeu a ordenação episcopal em agosto de 2000 e, em 2005, foi nomeado bispo da diocese de Sobral. Dom Antônio Fernando já foi presidente do Regional Nordeste 2 da CNBB.

Dom José Cardoso Sobrinho , o Dom do Ódio, dirigiu a arquidiocese desde o dia 15 de julho de 1985. Ele substituiu Dom Helder Pessoa Camara (1909-1999), arcebispo emérito de Olinda e Recife, que tinha assumido a arquidiocese em 1964. Diferentemente da situação atual, o pedido de renúncia de Dom Helder foi aceito de imediato pelo Vaticano.

Dois anos atrás, o carmelita denunciou ao Vaticano o padre Edwaldo Gomes, da Paróquia de Casa Forte, Zona Norte do Recife, por ter concelebrado missa com um bispo da Igreja Anglicana. Este ano, excomungou a equipe médica que fez um aborto legal numa criança de 9 anos de idade. A garota havia sido estuprada pelo padastro e tinha ficado grávida de gêmeos. A punição também se aplicou à mãe da menina.

Quando ao nosso novo arcebispo de Recife e Olinda, Dom Antônio Fernando Saburido, só nos resta sonhar, que entre os exemplos de amor e o ódio, ele consiga encontrar equilíbrio pra ser um pastor digno de seu rebanho!

Saudades temos do tempo que tínhamos um pastor !

17 junho 2009

Arqueólogos de Israel revelam obra de arte com 1.700 anos



Mosaico multicolorido, achado em Lod região central do país data dos séculos finais do Império Romano. O local acaba de ser escavado e vai virar um centro arqueológico.

16 junho 2009

É festa do Arraiá !!!

Do cais até o sertão, pernambuco é só São João

14 junho 2009

Ao meu amigo muito querido Victor Reis, hoje, dia do seu aniversário... que a nossa amizade seja sempre fértil e cheia de poesia!

NOITE DOS “CAPITÃES DA AREIA”

A cidade dormiu cedo.
A lua ilumina o céu, vem a voz de um negro do mar em frente.
Canta a amargura da sua vida desde que a amada se foi.
No trapiche as crianças já dormem.

A paz da noite envolve os esposos.
O amor é sempre doce e bom, mesmo quando a morte está próxima.
Os corpos não se balançam mais no ritmo do amor.
Mas no coração dos dois meninos não há nenhum medo.
Somente paz, a paz da noite da Bahia.

Então a luz da lua se estendeu sobre todos,
as estrelas brilharam ainda mais no céu,
o mar ficou de todo manso
(talvez que Iemanjá tivesse vindo também a ouvir música)
e a cidade era como que um grande carrossel
onde giravam em invisíveis cavalos os Capitães da Areia.

Vestidos de farrapos, sujos, semi-esfomeados, agressivos,
soltando palavrões e fumando pontas de cigarro,
eram, em verdade, os donos da cidade,
os que a conheciam totalmente,
os que totalmente a amavam,
os seus poetas.
Jorge Amado

09 junho 2009

Eco no ouvido


Há por ai uma calmaria desassossegada
Uns tantos quantos gritos abafados
Alguns sorrisos amarelos esbranquiçados
Umas tantas esperanças amordaçadas

Há por ali uma certa conveniência
E aquele silêncio de que tudo parece normal
Um deixa quieto, que sempre foi assim
Uma roupa velha que te vendem como nova

Novas impressões, palavras antigas
Sons, ruídos
E um eco no ouvido

E ali, ao lado, tímida, acuada,
A menina que sonhava
Um sonho possível.


liliana miranda
2009

08 junho 2009

.. desculpa lá adriano!

05 junho 2009

DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE

28 maio 2009

A palavra não é o limite


Admiração

admiro os sem dúvida
sobre quem servir
pela paixão com que servem
quanto a mim, admiro-me
por desgostar de ser vil
a quem quer que seja
por preferir, sem dúvida
a fraternidade que rema
contra a maré da servidão.

Pedro Américo concretiza o projeto de colocar a música a serviço da oralidade da poesia no audiolivro LinguarazNão há tema melhor para despertar polêmica nos debates universitários que a relação entre música e poesia. Seria a letra de uma canção popular literatura, ou mundos opostos e bem delimitados em suas diferenças? Uma discussão interminável, que na verdade precisaria ser colocada dentro de padrões de época. Houve tempos em que a poesia era feita para ser cantada, em outros, a cisão completa, mas não necessariamente definitiva. Ciente de toda essa polêmica e com desejo de se inserir nela, o poeta Pedro Américo lança amanhã, às 19h, no auditório da Livraria Cultura, Linguaraz, obra que literalmente apresenta a sua “voz poética”.
O projeto é bifronte: traz um livro de poemas acompanhado de CD. “Não sendo músico, quis sempre fazer um trabalho que casasse livro e disco em que meus poemas tivessem tratamento de composição musical, com direito a arranjos para percussão, guitarra elétrica”, explica Pedro Américo, cuja obra conta com participação de nomes como Silvério Pessoa, DJ Dolores, Yuri Queiroga e o próprio autor assumindo o vocal das composições.
“Excetuando os casos dos poemas O bailado dos olhos, Soma – sumo e Lei seca, o que aconteceu foi um processo de laboratório, em pleno estúdio, em que Yuri Queiroga, concentradíssimo na gravação de vozes e instrumentos, ia estudando caso a caso, sempre auxiliado de perto por Lucas dos Prazeres e ainda ouvindo a opinião dos demais componentes do trabalho, e assim gravando, arranjando e definindo o papel dos instrumentos no contexto de cada faixa”, explicou Pedro.
Linguaraz é um trabalho que cerca a poesia por todos os lados, de música por um, e pelos desenhos de Victor Zalma por outro: “Este não é um livro, é um audiolivro, mais ainda, como diriam os poetas concretos (que não gostam da palavra concretismo), trata-se de um trabalho verbi-voco-visual, não no sentido dos textos em composição de design na página, mas, diferentemente, um apelo mais aberto à idéia de um triângulo amoroso editorial entre o desenho, o texto e a música.”
Mesmo tão bem cercados, são nas palavras que os poemas de Pedro Américo ainda procuram um significado que se aproxime do sublime: “Gosto dos arcaísmos, e tenho descoberto que muitas palavras utilizadas por escritores modernos, e julgadas por leitores e até por ensaístas apressados, como neologismos, são, na verdade, palavras arcaicas fora de uso. Escolhi linguaraz, embora não traduza precisamente o conjunto deste trabalho. Apanho-a no seu melhor sentido de maledicente, não de uma maledicência sobre a vida alheia, mas de uma maledicência de quem busca definir a necessidade de a poesia se soltar um pouco da condição de refém do sublime”.

A Livraria Cultura convida para o recital de lançamento do audiolivro Linguaraz, de Pedro Américo de Farias.

29 de maio de 2009
18h30 Auditório da Livraria Cultura
R. Madre de Deus, s/n
Paço Alfândega Recife PE

24 maio 2009

Uma caipirinha para comemorar...

05 anos de traduções

Ás vezes me parece muitos anos.. muitos. Mas de repente não são tantos assim, poucos, quase nada. Poemas, contos, notícias.. imagens, fotografias, lutas, conquistas, acontecimentos inesquecíveis...

Aqui cabe o mundo inteiro ou nada... Por quê?
Porque,
Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo

Aqui somos uma força única ou ficamos sem voz, sozinhos... Por quê?
Porque,
Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão.

Aqui há todos os pesos e todas as medidas, ou medida alguma... Por quê?
Porque,
Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira.

Aqui a barriga faz barulho, estremece e se admira.. Por quê?
Porque,
Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira.

Aqui recriamos a nós mesmos ou improvisamos... Por quê?
Porque,
Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente

Aqui nos embriagamos de sentidos e vomitamos palavras.. Por quê?
Porque,
Uma parte de mim é só vertigem: outra parte; linguagem.

Aqui traduzimos tudo: pedaço por pedaço, fio por fio, cor por cor.. arte! Por quê?!
Porque,
Traduzir-se uma parte na outra parte - que é uma questão de vida ou morte - será arte?

É Arte!

Obrigados a todos por suas traduções!

19 maio 2009