Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente.
Traduzir uma parte na outra parte - que é uma questão de vida ou morte -
será arte?
Ferreira Gullar
23 julho 2009
(XVI)
Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.
Eu não tinha que ter esperanças – tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco
Fernando Pessoa
19 julho 2009
17 julho 2009
É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do
nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.
O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.
16 julho 2009
13 julho 2009
Aperto minhas mãos contra o rosto e uma ultima, profunda e definitivamente vez o aroma recria em mim o que em mim o tempo desfez.
E já não há perfumes, lembranças nem toques nem olhares, já não há lugares, pessoas, passos, abraços e choros e soluços. Já não há juras de amor.
Agora o tempo é tempo, presente, real e ausente de memórias. Agora o tempo é tempo sem tempo que já veio e se foi vezes sem conta.
Liliana Miranda
13.07.2009
06 julho 2009
Alma, garganta abaixo
Era cedo e naquele dia havia menos gente que o habitual. Nem sempre são as mesmas pessoas mas, dois ou três costumam estar lá mesma hora que eu. Quando me atraso um pouco percebo que há mais gente um pouco mais tarde. De fato percebo que quando chego ainda há movimento para deixar as coisas no lugar. Então os funcionários passam com bandejas de queijos, pães assado, café, leite e estas guloseimas que fazem parte do nosso café da manhã. Sentei no balcão como sempre já com minha xícara de café com leite e pedi para que providenciasse o meu habitual pão assado. Então, durante a minha espera pude perceber ao meu lado que as mãos dele tremiam muito. Mantinha quase sempre o rosto para baixo. Devia ter, pelo que disfarçadamente pude perceber, uns 40, 45 anos. Era jovem ainda. No balcão estavam duas garrafas de cerveja já vazias e um copo ainda cheio que ele foi bebendo muito rapidamente com aquelas mãos trêmulas. Era cedo ainda. E ele já tinha bebido duas garrafas de cerveja, embora uma bebida leve, para mim me parecia pesada para aquela altura do dia. Claro que não pude deixar de me sentir profundamente envolvida com aquela situação. No dia anterior, li mais sobre alcoolismo e busquei telefones e endereços de ajuda profissional. Há dois ou três anos tenho passado por este problema com uma pessoa muito querida. Como dói ver uma pessoa se destruir diante de um copo. Pela garganta abaixo se supõe desaparecer problemas, frustrações, dores, falta de amor entre outras coisas. Pela garganta também perdemos dignidade, respeito, clareza, força. Pela garganta se vai o que se acumula na alma pesando imensamente sobre um corpo frágil.
Quis chorar. Tentei não deixar transparecer meu incômodo, meu desespero, minha angústia. E ele tremia ao meu lado. Tremia também minha alma.
02 julho 2009
Quem é Dom Antonio Fernando Saburido?
Foto: Arquivo/Bárbara Wagner/JC Imagem
Há um ano atrás o arcebispo de Recife e Olinda Dom Jose Cardoso Sobrinho mais conhecido como o "Dom do Ódio" em contraste com seu antecessor dom Helder Camara, o "Dom do Amor", pediu sua renúncia por ter completado a idade máxima e só agora o pastor alemão, o Papa Bento XVI, nomeou outra pessoa para ocupar o cargo. Trata-se de Dom Antônio Fernando Saburido, 62 anos. Ele é pernambucano, nascido no Cabo de Santo Agostinho e foi ordenado padre pela Ordem de São Bento (OSB) em 1978. Nomeado bispo auxiliar de Olinda e Recife, recebeu a ordenação episcopal em agosto de 2000 e, em 2005, foi nomeado bispo da diocese de Sobral. Dom Antônio Fernando já foi presidente do Regional Nordeste 2 da CNBB.
Dom José Cardoso Sobrinho , o Dom do Ódio, dirigiu a arquidiocese desde o dia 15 de julho de 1985. Ele substituiu Dom Helder Pessoa Camara (1909-1999), arcebispo emérito de Olinda e Recife, que tinha assumido a arquidiocese em 1964. Diferentemente da situação atual, o pedido de renúncia de Dom Helder foi aceito de imediato pelo Vaticano.
Dois anos atrás, o carmelita denunciou ao Vaticano o padre Edwaldo Gomes, da Paróquia de Casa Forte, Zona Norte do Recife, por ter concelebrado missa com um bispo da Igreja Anglicana. Este ano, excomungou a equipe médica que fez um aborto legal numa criança de 9 anos de idade. A garota havia sido estuprada pelo padastro e tinha ficado grávida de gêmeos. A punição também se aplicou à mãe da menina.
Quando ao nosso novo arcebispo de Recife e Olinda, Dom Antônio Fernando Saburido, só nos resta sonhar, que entre os exemplos de amor e o ódio, ele consiga encontrar equilíbrio pra ser um pastor digno de seu rebanho!
Saudades temos do tempo que tínhamos um pastor !
17 junho 2009
14 junho 2009
A cidade dormiu cedo.
A lua ilumina o céu, vem a voz de um negro do mar em frente.
Canta a amargura da sua vida desde que a amada se foi.
No trapiche as crianças já dormem.
A paz da noite envolve os esposos.
O amor é sempre doce e bom, mesmo quando a morte está próxima.
Os corpos não se balançam mais no ritmo do amor.
Mas no coração dos dois meninos não há nenhum medo.
Somente paz, a paz da noite da Bahia.
Então a luz da lua se estendeu sobre todos,
as estrelas brilharam ainda mais no céu,
o mar ficou de todo manso
(talvez que Iemanjá tivesse vindo também a ouvir música)
e a cidade era como que um grande carrossel
onde giravam em invisíveis cavalos os Capitães da Areia.
Vestidos de farrapos, sujos, semi-esfomeados, agressivos,
soltando palavrões e fumando pontas de cigarro,
eram, em verdade, os donos da cidade,
os que a conheciam totalmente,
os que totalmente a amavam,
os seus poetas.
09 junho 2009
Há por ai uma calmaria desassossegada
Uns tantos quantos gritos abafados
Alguns sorrisos amarelos esbranquiçados
Umas tantas esperanças amordaçadas
Há por ali uma certa conveniência
E aquele silêncio de que tudo parece normal
Um deixa quieto, que sempre foi assim
Uma roupa velha que te vendem como nova
Novas impressões, palavras antigas
Sons, ruídos
E um eco no ouvido
E ali, ao lado, tímida, acuada,
A menina que sonhava
Um sonho possível.
liliana miranda
2009






