23 outubro 2004


J� estava de sa�da. Mas parei um instante e foi quando percebi aquela imagem que aos poucos me foi levando a um estado de imensa ternura, saudade, admira�ao... S� podia ver, de onde estava, suas costas e cabe�a. Ela, pouco passava do final da cadeira que lhe acomodava, e sua cabe�a, parada, quieta, pensativa talvez, mostrava-me todos os fios de seus cabelos brancos em uma aparente fragilidade e sabedoria... E uma lembran�a de anos atr�s me tomou naquele momento.
Depois de um dia inteiro a andar pela cidade em compras, de volta a casa, entramos no t�xi, minha mae e eu. O motorista tinha os cabelos absolutamente brancos e em um gesto inesperado, minha mae pediu para tocar em seus cabelos. Fez-lhe carinho e disse-lhe palavras bonitas de se ouvir. Esta cena me marcou. Naquele dia, ela disse ao motorista do t�xi palavras tao doces... de admira�ao pela sua idade, pela sua luta ainda depois de tantos anos... ela o admirou e talvez, tenha sentido sem saber, que ela, nao teria um dia a cabe�a assim. Minha mae nao viveu o suficiente para ter ela mesma uma cabe�a branca. Partiu, justamente sem nenhum fio de cabelo.
Pensei em tudo isso neste pequeno espa�o de tempo, mas, nao demoraria muito e eu teria que seguir meu caminho e passar por aqueles ombros fr�geis sob uma cabe�a branca. Em passos lentos aproximei-me. Passei dela e num impulso incontrol�vel, virei meu corpo e olhei agora para o seu rosto. Sorri-lhe. Ela olhou-me. Creio que meus olhos lhe disseram: _Admiro sua vida j� vivida... admiro o que representa estes cabelos brancos, admiro-te e vejo em ti os cabelos brancos da minha mae. Ela olhou-me. Olhos expressivos. Sorri mais uma vez e segui meu caminho.

lualil 2004

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