Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira. Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente.
Uma parte de mim é só vertigem outra parte, linguagem.
Traduzir uma parte na outra parte - que é uma questão de vida ou morte...
será arte? (Ferreira Gullar)

27 Janeiro 2006

MOZART CAI NO SAMBA!

Em comemoração aos 250 anos do nascimento de Mozart, foi lançado um desafio: Unir uma orquestra sinfônica(Orquestra Petrobrás Sinfônica com a regência do maestro Isaac Karabtchevsky) com uma bateria de escola de samba(Unidos da Tijuca) executando uma obra de Mozart. O resultado é fantástico!! E eu, arrisco dizer que só mesmo a criatividade brasileira seria capaz de um arranjo espetacular como este!

Para ouvir este arranjo clique aqui

postado por lualil às 21:30 lualil@hotmail.com

Para além dos sons e das letras


Para além de todos os sons escuto as palavras que não me dizes
E meu corpo sente as carícias que nunca me fizeste
O teu gosto é em mim quando balbucio o teu nome
E as letras, todas, desenham contornos de nós dois
Soletrando sensações, sentindo alfabetos.

2006

postado por lualil às 16:31 lualil@hotmail.com

24 Janeiro 2006

Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá Carneiro
1 8 9 0 - 1 9 1 6

postado por lualil às 11:22 lualil@hotmail.com

23 Janeiro 2006

QUANDO FORES VELHA

Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;
Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;
Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.

W.B.Yeats

postado por lualil às 00:26 lualil@hotmail.com

20 Janeiro 2006

O TEU OLHAR

O teu olhar fixou-se
numa nuvem,
um ponto que aumentou imensamente
e te retém ao começo da noite
como se fosse a ameaça
de que talvez conheças a origem num passado
ácido de faces, posso
recomeçar quase tudo levantando
a pedra
final que nos esmaga;
há coisas que não têm recomeço.

Gastão Cruz
(in «Repercussão», Assírio & Alvim)

postado por lualil às 11:35 lualil@hotmail.com

15 Janeiro 2006

As vidas que eu sonhei


Fico soturno a olhar para o mar
e a pensar num rei a traduzir Shakespeare
numa varanda embriagada pelo azul.
Deixei de ter tempo para espiritualidades,
para o engodo das tremendas interrogações,
para a altivez das perguntas sem resposta.
Fiquei temporariamente domesticado
para uma outra escrita, por um discurso
que não consente divagação ou fuga.
Normalizei-me, e contudo gosto de ver
a mão hesitante e trémula
à beira da consumação do poema
quando a maré assalta a muralha
e traz, misturados com a espuma,
os destroços das vidas que eu sonhei,
das vidas que, se calhar, eu já vivi.

José Jorge Letria
- in Os Mares Interiores, ed. Teorema, 2001

postado por lualil às 20:36 lualil@hotmail.com


Uma história de amor

Ruka ama Martinha..
Martinha ama Ruka..

amam-se e desejam-se!

(sejam felizes.. sempre!)

postado por lualil às 19:16 lualil@hotmail.com

09 Janeiro 2006

Sei que não te agrada o espanhol.. não me deixavas te falar ao ouvido.
Então minha lingua era tua em silencio. E era toda linguagem.
Distante de ti leio noticias, escrevo e penso enquanto não vens...


ESCRIBO, PIENSO, LEO

Escribo
pienso
leo
traduzco veinte páginas
oigo el informativo
escribo
escribo
leo.
Dónde estás,
dónde estás ?

Vilariño Idea

postado por lualil às 19:30 lualil@hotmail.com

07 Janeiro 2006

... de prosa, arte e vida
A Márcia Maia é uma poeta pernambucana, destas que deixa a gente sem ar.. que nos faz pensar na vida, nas pessoas, nos sentimentos.. envolve-nos com arte e vida. Tenho hoje o imenso prazer de mostrar aqui um texto feito por ela e publicado em seu blog Mudança de Ventos, que fala muito sobre a nossa cultura e o nosso sentimento de amor por esta cidade e pela nossa história.
Obrigada Márcia por me deixar traduzir aqui através das tuas palavras a emoção que traz na alma um recifense.

Um boi nos céus do Recife

Vez em quando um boi voa no Recife. E não assusta ninguém. Só encanta.Voou a primeira vez, nos idos de mil e seiscentos, no Recife holandês de Maurício de Nassau, governador da província invadida. Diz-se que amava a cidade, o conde. E que fez o boi voar sobre a ponte que hoje tem o seu nome. Um vôozito de nada. Do passeio ao ponto mais alto das ferragens da mais bela das pontes. Um vôo, uma aposta ganha e um boi incorporado ao imaginário recifense, cantado, três séculos depois, em versos por Chico.
Voou outras vezes, sempre sobre a mesma ponte, em shows no século vinte. Mas nunca um boi foi tão ousado e tão bonito como o que voou ontem, na virada do ano. Ousado o bicho! Voou de um lado ao outro do rio. Do antigo Grande Hotel ao Paço Alfândega. Sobre o Capibaribe. Vôo de ida e volta, feito avião de carreira. Tanto gostou de voar, o boi-pássaro, que diz-se enfeitará com seus vôos as noites recifenses. E que, nas noites de lua nova, como ontem, ao se olhar com cuidado, na cabeceira da ponte ver-se-á o vulto de Nassau aplaudindo o vôo e sorrindo.

Márcia Maia

postado por lualil às 15:06 lualil@hotmail.com

02 Janeiro 2006

Novo
Vi surgir o novo
transpondo marcações
transpirando
iodo e sal

postado por lualil às 15:28 lualil@hotmail.com

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