18 julho 2004

Fragmentos

� tarde, sol poente. Raios vermelhos e laranjas cobrem o c�u e uma nostalgia invade minha alma. Neste momento penso no passado. Passado que se mistura com presente e futuro, com magia e realidade, sonhos. Nao tenho lembran�as n�tidas de quando era crian�a, apenas fragmentos.

 Nunca fui a mais t�mida na escola nem com amigos ou at� mesmo em casa, mas tamb�m nao conseguia ser exatamente como queria, fui um projeto de mim mesma. Lembrar isso provoca-me uma sensa�ao estranha. Estranha e boa. Sensa�ao de projeto finalmente iniciado, modelando-se.  Faz-se diante de mim a figura de mim mesma. Aquela que por muito tempo persegui.

Sempre tive a n�tida no�ao da dificuldade de finalizar esse projeto de mim. Nem quero. Seria o ponto final. Cen�rio e personagem nao se harmonizavam, ainda hoje nao se harmonizam completamente e isso faz-me acreditar que nao perten�o a este lugar. Nao tenho lembran�as tamb�m de outras vidas, mas, sei que � de uma outra vida a sensa�ao que trago comigo desde cedo.

Hoje, lembrei que uma amiga sabe sentir isso que sinto. Percebe a diferen�a entre ser e estar. Estou certamente aqui e nao sou eu ou, sou eu e nao estou aqui. Realidade e fantasia se misturam numa tenue diferen�a que nao consigo encontrar o ponto de partida, o ponto de chegada.  Nao consigo separ�-las, ao passo que nao consigo uni-las.  Estivemos muitas vezes, por horas, a tentar definir, eu e ela, o que seria esta emo�ao, este estado de divisao e uniao.

Por vezes t�nhamos a impressao que sab�amos tudo e no segundo seguinte nao sab�amos nada. Sent�amos, era f�cil, sab�amos disso, mas definir se tornava para n�s duas, cada vez mais complicado, por�m cada vez mais excitante e desafiador. Um alimento para nossas vidas... Sabemo-nos especiais. Muitas vezes especiais para outras pessoas, muitas vezes uma para a outra e ainda outras vezes especiais para n�s mesmas.

Hoje, sei onde ela est�. Amanha nao sei. Por isso, deixo escrito, aqui, hoje, porque sei que estou viva, deixo escrito que sentir-se assim, especial e diferente, inclu�da ou exclu�da, que esta sensa�ao de sonho-realidade nos abre caminho em mundos que poucas pessoas conseguem sequer compreender que existam e que por conseq�encia nao percebem a diferen�a entre eles.

 Somos especiais sim, minha amiga. Somos m�gicas. Sentimos a magia no ar! E se pud�ssemos olhar nossos olhos num desses momentos de transe, ver�amos certamente um raro e infinito brilho no olhar. Nao olhamos nossos olhos neste momento, sentimos nossas almas brilharem com a for�a que o universo tem para se(nos) revelar.

H� pessoas que veem o que temos de melhor, h� pessoas que veem em n�s o que temos de mais puro e livre. Nos vemos assim. Entre mundos, entre idas e vindas temos a nossa identidade, sensibilidade simbolizada pela percep�ao de brilhos, pela suposi�ao de felicidade, pela sensa�ao de infinito, pelos sonhos repartidos, alegrias somadas, tristezas divididas.

Nao quero, quando descobrir em qual dos mundos viver, ter a sensa�ao que ficou alguma palavra sem ser dita, algum gesto sem ser feito, sorrisos sem ser dados, carinhos contidos, emo�oes suprimidas. Meus sorrisos e sonhos alegres, cheios de esperan�a dedico a ti neste momento.

Agora, entre as linhas que nos encontramos, observo este p�r de sol e sei que saber�s compreender o que neste momento sinto. Um dia, entre um caminho e outro nos encontraremos como sempre foi, e como para sempre continuar� sendo.

Sempre entre mundos, deste ou doutro lado... vemos-nos.


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